14 dezembro 2013

Misticismo e amor em "Até eu te encontrar", de Graciela Mayrink

O cantor e compositor brasileiro Cazuza escreveu sobre "destinos traçados na maternidade" e "paixões cruéis, desenfreadas", na canção Exagerado. Na letra, encontrar e manter a alma gêmea justifica qualquer excesso. Na vida nossa de cada dia, muitas pessoas sonham acordadas em encontrar a "sua cara metade", recorrendo, algumas vezes, aos meios mais absurdos: perseguição, "simpatias", cartomantes, gastos financeiros e emocionais astronômicos, até culminar na falta de amor próprio. Quando um ser humano deixa de se perceber como consciente e livre em prol de um amor absurdamente imperioso, o sonho começa a virar filme de terror B.

Essa é a "lição de moral" que absorvi da leitura de "Até eu te encontrar" (selo "Novas Páginas" da editora Novo Conceito, 2013, págs. 384), romance de estreia da carioca Graciela Mayrink. Com formação em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa - UFV e mestrado em Fitopatologia pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), Graciela ambientou a narrativa de seu romance nas cidades mineiras de Viçosa, Lavras e Ponte Nova, onde a natureza ainda brilha, concedendo aos moradores e visitantes o ar de sua graça. 

Aprovada no vestibular da UFV, Flávia se muda para a cidade e decide ter outra vida. Ainda criança, a jovem perdeu os pais em um evento traumático e foi criada por um casal de tios em uma fazenda. Como o passado da mãe é cercado por mistérios e silêncios, Flávia nunca soube maiores informações sobre seus pais ou a vida que levavam. Ao chegar em Viçosa, a moça vai morar no mesmo prédio que uma antiga amiga de sua mãe vive. Mas as "coincidências" não param por aí. A amiga em questão é Sônia, dona de uma loja de produtos exotéricos, e tem o dom de ler o pensamento do coração dos seus interlocutores. A amizade de Flávia com Sônia vai trazer à tona mistérios do passado escondidos, onde magia e segredo se misturam em uma grande avalanche de acontecimentos.

Em Viçosa, Flávia faz novos amigos, conhece um rapaz com quem tem um flerte, desperta inimizades e percebe as voltas que o destino dá quando o assunto é o coração, ao conhecer outro rapaz, Luigi. A antipatia infundada de início dá lugar à novas sensações e sinais fortes do encontro de almas gêmeas. Só que, como tudo no mundo, os caminhos para a felicidade nem sempre (leia-se quase nunca) são retos e sem obstáculos. Para viver esse amor, Flávia precisará enfrentar a revolta de Carla, namorada de Luigi. 

Magia para a bondade e para a maldade: faces de moedas diferentes

No desenrolar da história, o leitor vai encontrar uma narrativa minuciosa, que valoriza os fatos cotidianos e os descreve como se fossem uma novela. Além dos arroubos e arrufos dos casais que se formam e se desintegram, "Até eu te encontrar" pincela a religião Wicca ao trazer cenas em que feitiços, magnetismo mental, oferendas e pedidos à Deusa Mãe são feitos e têm o poder de estarem presentes na vida dos personagens. Entretanto, confesso que senti falta do envolvimento de mais aspectos místicos, além de um maior número de passagens sobre a prática da Wicca em si. Outra ausência no romance vem com o desfecho de alguns personagens, fazendo com que a pergunta "Mas o que aconteceu com ela/ele?" insista em pairar no ar. 

Graciela Mayrink

Fora esses detalhes, o livro de Graciela é agradável, traz casos pertinentes ao universo jovem e fala de um assunto que, como diria Cazuza, deixa homens e mulheres "exagerados": a busca pela alma gêmea.