15 janeiro 2014

Leitura escolar: O Primo Basílio

O texto a seguir foi escrito pelo nosso convidado Fábio Michelete, autor do romance “Aprendi a me Amar – Em busca da felicidade”.

Mais uma releitura para ressignificar aquela sensação que a gente tem quando é obrigado a ler algo para a escola. Com “O Primo Basílio” tinha sido assim. Li por obrigação, há muitos anos. As escolas são ótimas para ensinar como não gostar de ler.

A novidade nessa releitura? “O Primo Basílio” é um livro delicioso! Cuidadoso na forma e com ritmo muito bom. Embora lido numa edição barata (com papel feio, letras miúdas e pouco espaço entre linhas), não me cansou nem um minuto, e mesmo obrigou a postergação das horas de sono em algumas oportunidades.

Eça de Queiroz é reconhecido por suas críticas sociais. Já tinha visto este lado do autor em “A Ilustre Casa de Ramires” (tem uma resenha minha no Dose Literária). O que mais me chamou a atenção, para além das críticas sociais bem pertinentes, foi a boa construção das personagens.
O autor tem uma interessante maneira de mostrar como nossa percepção do mundo é dependente de nosso estado de ânimo. Ele descreve o ambiente num dia de bom humor de Luísa:

“Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céu arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas velhas e, aqui e além, uma nuvenzinha algodoada, molemente enrolada, cor de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a água do tanque uma cristalinidade fria; pássaros chilreavam de leve com vôos rápidos.”

... ou num dia em que a personagem não está tão confiante:

“Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçais do rio baixo; e o mestre aventureiro, que sonhava com os incensos e os almíscares das florestas aromáticas, imóvel sobre seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.”

Obra adaptada pela Rede Globo em 1988.

Em diferentes momentos, as personagens do livro (principais ou secundárias) se visitam. Quando travam suas discussões e interações, é muito engraçado – e um irônico retrato da realidade – como os interlocutores não se ouvem. Cada um em seu mundo, retomando seu foco em sua vez de falar, ignorando completamente o que foi tratado pelo outro há segundos atrás.

Todos fazemos isto, em maior ou menor medida. Muitas vezes escutei boas dicas, mas só fui capaz de entende-las quando era tarde demais para evitar uma dura lição. Do outro lado, já sugeri linhas de ação a clientes e alunos, e vi claramente que não entendiam o que eu priorizava – escolhendo agir diferente - para retornar após um tempo reconhecendo que eu estava certo. Me divirto agora, lembrando que muitas vezes faço resenhas de livros sem ler as de outros leitores, esquecendo o fator enriquecedor gerado por outros pontos de vista.

Não sei ao certo por que hesitamos tanto em beber da experiência dos outros. Acho que nos acreditamos especiais, impedindo-nos de aplicar a experiência dos outros a nossa existência. Não enfiamos o dedo na tomada, isto é certo, mas nos atiramos às paixões (materiais ou imateriais) como perfeitos idiotas, na crença de que “desta vez é diferente”.

E você, já reconheceu a existência (e inteligência) dos outros?

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