27 fevereiro 2014

Deixe a Inglaterra tremer

Uma viagem sempre nos trás novos conhecimentos a respeito de culturas, costumes regionais, História, e experiências pessoais. Quando a viagem é internacional, ampliam-se os conhecimentos acerca de outros idiomas e dos hábitos populares do país. Novos rostos, de diversas nacionalidades sempre surgem para quem convive na miscelânea de uma capital mundialmente conhecida pela sua diversidade cultural.


Essa foi a experiência de Sávio Lopes em Londres, contada em seu primeiro livro Deixe a Inglaterra Tremer, quando fez um intercâmbio cultural de quatro meses para aprimorar seu conhecimento na língua inglesa e engrandecer seu currículo. O estudante de Jornalismo, já havia tido uma experiência em outro país, passou dos quatro aos oito anos de idade morando na Bélgica, e retornou ao Brasil para enraizar-se com a família no interior de Minas Gerais, onde iniciou sua graduação. Nas férias entre 2009 e 2010, juntou a coragem com a sede de conhecimento, arrumou as malas e foi estudar no Velho Mundo, o que lhe rendeu uma boa história para contar embalado pelo rock alternativo.

É nos aeroportos, brasileiros e ingleses, que começa e termina sua narrativa, o "portal" que permitiu ao autor observar com olhos atentos e experientes, apesar da pouca idade, um mundo diferente daquele seu habitual. Em 208 páginas, Sávio conta como foram os dias que passou na fria e nublada Londres, estudando na escola de inglês Athenaeus, onde conheceu pessoas de distintas nacionalidades com o mesmo propósito que o seu, estudar para aprimorar o idioma, explorar a cidade, trabalhar, conhecer lugares históricos e turísticos que só conhecia através de letras de músicas, clipes e livros, passear, pelos bairros tradicionais e por que não?, curtir as noites londrinas. As amizades foram inevitáveis. Tanto na casa de Sandra, a anfitriã que alugou um quarto de sua casa para o estudante durante esses quatro meses, quanto na escola que estudou. É interessante observar as mudanças pelas quais passou o autor desde a chegada ao país, até a hora da partida. Uma das primeiras impressões que teve ao conhecer o prestativo italiano Matteo, também inquilino de Sandra e estudante da Athanaeus, era de que não precisava ter mais amigos, pois já tinha o suficiente.

Essa inicial intransigência de Sávio, junto com um pouco de mau humor, me fizeram apaixonada pela sua narrativa. Nada é enfeitado demais, poético ou exagerado. Gostei muito da sua sinceridade, da sua personalidade, do seu modo de ver, analisar e avaliar as intensões e ações das pessoas que conheceu ao longo do caminho. Assim como me encantei pelo seu dom em transportar o leitor para os ambientes descritos de forma clara e simples.
Me diverti junto com ele pelos pubs ingleses onde os colegas da Athanaeus se reuniam depois das aulas, pelas paisagens, pela arquitetura e pelos passeios em lugares que só conheço por imagens ou descrições de escritores. Me vi aflita e indignada quando da falta de dinheiro deste anti-herói que precisou procurar freelas e enfrentar pessoas e situações desconfortantes, das noites e madrugadas gélidas que enfrentava nas ruas às voltas para casa, da saudade do lar brasileiro, dos preconceitos e do ríspido tratamento que recebia na escola onde estudava pelos introspectivos funcionários ingleses.

Mas sei bem, que Sávio tirou disso tudo um aprendizado para a vida toda, do quanto é difícil a entrega às novas amizades, e da 'obrigação' social de conviver com aqueles que não o cativaram, seja por suas atitudes ou suas opiniões; e de forma igual, a despedida dos laços estreitados daqueles que findaram sua jornada naquele país, e que surpreendentemente deixaram saudades e boas recordações.
Romenas, alemãs, árabes, italianos, brasileiros, franceses, Sávio conheceu diversas culturas, tradições e sotaques, num mundo novo sintetizados em faces distintas, histórias ouvidas em rodas de amigos e ótima percepção da realidade, sem deslumbres, para constatar que não há lugar melhor no mundo que o seu lar. 

Introduzindo cada um dos 33 capítulos da obra, uma estrofe de uma letra de música, The Velvet Underground, PJ Harvey, Alanis Morissette, Belle & Sebastian, Florence + The Machine, Cat Power, Patti Smith e muitos outros disseram musicalmente à Sávio tudo aquilo que ele viu e viveu nesse processo evolutivo, o que casou muito bem com a sua experiência internacional e com a identidade do livro. A capa não poderia representar o conjunto da obra de outra forma.

Para quem aprecia um bom rock, para quem, assim como Sávio, é fã da literatura Beat, para àqueles que sonham ou já sonharam viajar e conhecer a Inglaterra, e para quem aprecia as horas passadas conhecendo a experiência de um jovem em fase de constante transição, recomendo esta ótima obra que classifiquei com 4 estrelas.


Obrigada, Sávio, pela oportunidade de conhecer a sua literatura.
Certamente que, no dia em que eu for à Londres, lembrarei de você e da sua estória.

Após concluir a leitura, a curiosidade cresceu, desejei saber se continuas a manter contato com os amigos que fizeste na Athanaeus, se já concluíste o teu mestrado em Letras, se pensas em voltar à Inglaterra para reencontros, e se há planos para um novo romance. De vivência tão intensa, conhecimento tão diversificado e frases tão reflexivas, só consigo prever uma próxima obra tão boa quanto esta.

Sávio Lopes nasceu em 1989 em Minas Gerais. Se graduou em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), e em 2012 iniciou o mestrado em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Pesquisador da literatura produzida por Jack Kerouac e da chamada Geração Beat, Sávio Lopes incorporou em sua obra elementos que acompanharam sua formação.
Deixe a Inglaterra Tremer é seu romance de estréia, lançado pela Editora Novo Século.