05 fevereiro 2014

Esperança no Ser Humano?

O texto a seguir foi escrito pelo nosso convidado Fábio Michelete, autor do romance “Aprendi a me Amar – Em busca da felicidade”.

Gosto de aproveitar o que posso de cada leitura. Enquanto lemos, nossa cabeça viaja, associando seu conteúdo a nossas experiências pessoais, leituras anteriores, opiniões. Resulta disto que muitas vezes não é o livro em si que faz mover as engrenagens da cabeça. As vezes, o enredo e personagens tão trabalhados pelo autor tornam-se meros panos de fundo, e o prazer da leitura deriva de uma experiência muito pessoal, exclusiva. Puxamos um fio do novelo do autor, e por vezes corremos algumas páginas com olhares vidrados, dando pouca atenção ao que está à frente dos olhos, concentrados no que está atrás deles.

Acho que aproveitei mais de meus pensamentos pessoais do que d´A Cidade do Sol em si. Não me levem a mal. O Best-seller de Khaled Hosseini tem muitas qualidades. Edição bem feita, bem traduzida (me pareceu), tem ritmo bom, tema interessante, mas desde o início você já sabe qual será sua fórmula. O autor vai explorar o tema da opressão da mulher no regime Talibã.

No balanço, mostra a capacidade humana de fazer coisas terríveis uns aos outros, bem como a resiliência do ser humano, capaz de lutar contra tudo e contra todos. A opressão da violência sexual, colocada em comparação com a beleza do amor maternal. É bonito, mas batido também. Foi nesse ponto que minha cabeça “derivou”, por assim dizer.

Devemos pensar historicamente. Há poucas gerações, governos ocidentais faziam execuções públicas com enforcamento ou guilhotina. Era aceito na época. Hoje não é mais, e choca nossa opinião quando alguém infringe uma lei que não entendemos, e sofre uma punição que consideramos bestial. Então, qual seria o limite entre as diretrizes pelo respeito ao ser humano, e o respeito a diferenças culturais e valores? Como decidir (e impor a outros povos) o que é certo ou errado?

Acho que o ponto de equilíbrio está num lindo documento de 10/12/1948. A declaração Universal dos Direitos Humanos é uma obra que respeita diferenças, mas estabelece um “ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações”. Infelizmente, muitos de nós preferimos ignorar as premissas deste documento, e continuar investindo em argumentos que nos separam – religiosos, nacionalistas, políticos, étnicos, etc.

Não perco a esperança. Gosto de pensar que nossa evolução, por dolorosa e lenta que possa parecer, é também inevitável. É essa minha expectativa para as mulheres afegãs representadas no livro de Hosseini. É minha expectativa que cada opção por um comportamento gentil e respeitoso contribua para o mundo que quero deixar para meus filhos. Utopia?

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