01 fevereiro 2014

Recomeços não têm idade - O livro de Eva, de Constance Beresford-Howe

Algumas vezes, atravessamos períodos de profundo desencanto, infelicidade e tristeza por medo de mudar. Recomeçar não é tarefa fácil. Quase sempre herdamos uma ou outra cicatriz, duas ou mais mágoas, seis ou mais lágrimas. O presente e o futuro dependem da nossa posição diante dos acontecimentos, levando-nos a carregar múltiplos positivos ou dividendos negativos A personagem Eva escolheu fazer esse cálculo no próprio caminho, sem muito tempo para planilhas ou planejamentos.

Eva é a protagonista de "O livro de Eva", romance da canadense Constance Beresford-Howe (original Book of Eve, tradução de Teresa Figueira e Timothy Yuan, editora Leganto, 2003, págs. 224). Com um currículo acadêmico brilhante (mestra pela McGill University e doutora pela Brown University), Constance publicou "O livro de Eva" em 1973, abrindo espaço para questionar os limites de instituições consagradas, como a família, tradição e religião. A narrativa em primeira pessoa traz a voz de Eva, uma mulher de meia-idade que, cansada de viver uma angústia mortal e silenciosa, decide abandonar todo o seu universo. Saindo de casa com uma mala frouxa, Eva deixa para trás um marido rabugento e doente, um filho cheio de problemas domésticos e uma casa "quente e segura" em um bairro burguês de Montreal. 

Eva não tem para onde ir e perambula de táxi pela cidade até chegar a uma parte decadente e esquecida. Ali, ela parte em busca de um lugar barato para alugar e acaba parando em um porão. A partir dessa decisão, o leitor acompanha as digressões de Eva, onde reinam dúvidas, medos e tristezas. A "fugitiva" só tem certeza de uma coisa: não quer voltar para um casamento que só trouxe amargura e distância, e para um marido que provoca repulsa. 

Vez ou outra, me peguei chorando ao ler as confusões sentimentais de Eva. Aquela senhora na casa dos 60 anos poderia ser minha avó, minha mãe, minhas tias, amigas ou até mesmo eu. Que tipo de situação pode nos fazer abandonar todas as nossas certezas? Uma desilusão amorosa? A morte de alguém querido? Uma doença? O motivo é o que menos importa. O nó na garganta se forma, o estômago começa a doer e só queremos adormecer. Eva, cujo nome bíblico não remete só às agruras, mas também à força e à coragem de decidir romper as barreiras das "verdades"(termo que, como diria Michel Foucault, alimenta "práticas da beligerância"), transforma o cristal em vidro. E com essa metamorfose, ela mergulha em outras realidades: a solidão bate à porta, novos rostos surgem, cheiros, sentidos, nomes e amores emergem. Em uma das partes mais bonitas do livro, Eva toma de volta o poder da sexualidade (obscurecido pelo marido insensível), e constrói um novo prazer: vagar pelas ruas da cidade à procura de objetos perdidos.

O livro escrito por Constance tem suas metáforas, e a mais expressiva delas está personificada na atividade de Eva em sair em busca de coisas esquecidas por seus donos. Nessas incursões, Eva vê em chapéus, brinquedos, casacos, sacolas e bolsas uma oportunidade para achar a si mesma, desapegando do que é material para valorizar o imaterial. 

Esse foi o meu primeiro contanto com a obra de Constance Beresford-Howe, e veio parar nas minhas mãos por intermédio da Eni (pessoa maravilhosa, assim como todas as minhas queridas amigas do Dose Literária!). A ironia fina e a inteligência de Eva me encantaram, e aposto que vão encantar você também.