06 março 2014

As Intermitências da Morte, de José Saramago

Esta resenha foi desenvolvida pelo colaborador Vagner Reis.

“VOCÊ JÁ PENSOU SE NINGUÉM MAIS MORRESSE?”

“No dia seguinte, ninguém morreu.” É com essa frase que José Saramago inicia o seu ensaio cujo tema central e fiador das histórias particulares é a morte. Em um lugar hipotético, num tempo hipotético, mas que remete muitas vezes à nossa época, Saramago tem uma ideia de escrever uma história que dialogasse com um dos principais temas, aflições e mistérios que rodeiam o homem, contudo, de uma maneira diferente: “O que aconteceria se as pessoas não mais morressem?”. Com perguntas imaginárias iguais a essa, é possível chegar ao cerne da discussão e das abordagens filosóficas que o autor propõe para pensar a importância da morte em relação à vida e também quais seriam as consequências de uma possível “vida eterna terrena”. Dessa forma, com uma temática tão própria e construtiva, Saramago convida o leitor a se interar em reflexões políticas e sociais importantes concernentes à finitude, o que, por sua vez, faz com que imaginemos as configurações de diversas instituições sociais modificadas em que uma situação caótica é estabelecida simplesmente pela ausência da morte na vida dos homens.

Edição Companhia das Letras

Como já foi mencionado, o livro começa com a categórica afirmação de que ninguém mais morreria naquele país, ou seja, segundo a história, a partir do primeiro dia do ano novo, ninguém mais, seja novo ou velho, morreu naquele lugar. As crianças que nasciam em condições de subsistência, os velhos moribundos que definhavam em camas de hospitais ou em suas residências passaram a ter que conviver com o peso e o sofrimento da existência eterna, pois não havia mais como o “fim” chegar a eles. Sendo assim, ocorreu uma condição deplorável tanto à pessoa que estava morrendo, quanto para a família que presenciava e agora tinha que conviver com aquela situação delicada, pois, apesar de a morte não ceifar mais aquelas pobres almas, a velhice e a degradação do corpo físico não cessaram e continuaram no seu ritmo normal trazendo diversas preocupações sociais e familiares.

Como ficaria a religião numa situação dessas? Uma das grandes ênfases sobre as doutrinas religiosas está nas profecias de um mundo inteligível em contraposição a esse mundo sensível do corpo, então a pergunta: Quais seriam os motivos de uma religião num momento desses que a única certeza não seria mais a morte e o mistério póstumo, mas a certeza da eternidade nesse mundo e o fim de um segundo? Para que as crenças religiosas na eternidade, se esse tão idealizado mundo não mais fosse possível e caísse no esquecimento e na mentira? São com reflexões como essas que Saramago leva o leitor a se indagar da importância e necessária existência da morte na vida, não apenas pensando a religião, mas também a política, a sociedade, a família, a economia, entre outros. Qual seria a posição dos Estados frentes à impossibilidade de morrer? Quais seriam os impactos sociais e políticos disso na saúde pública, etc? [E por aí vai o raciocínio...]. Parece-me que esse livro traz uma resposta à comumente pergunta do porquê nós morremos? Provavelmente, a maioria das pessoas já se indagou sobre isso e talvez, na maioria das respostas, a morte fosse encarada como uma desgraça, e justamente é a isso que o ensaio se preocupa, pois a morte, na visão do autor, é extremamente essencial, a vida em si perderia sentido sem a morte e é somente por meio da morte que a “vida” caminha.

Precisa-se fazer referência a mais dois acontecimentos importantes no livro que são cabais para o entendimento da obra e também da ideia do título do livro e do enredo. Com a impossibilidade de morrer naquele lugar, a sociedade começa a se moldar e a entrar em crise, forçando inclusive famílias a terem a ideia de levar essas pessoas moribundas às fronteiras do território para atravessarem-na e, assim, poderem morrer. Contudo, rapidamente isso vira um problema político de fronteiras e também e de pessoas que são contra essa atitude; então com a proibição de atravessar a fronteira pelos motivos de “matar” alguém, máfias começam a surgir para trafegar esses corpos até a fronteira ilegalmente, ou seja, acabou gerando um comércio ilegal nessa sociedade que agora estava conturbada querendo que a morte voltasse. Durante essa parte do livro, o autor faz menção à morte pela perspectiva medieval de sua representação como uma caveira envolta de um manto preto segurando uma foice, isto é, um aspecto sombrio e amedrontador. O que remete à ideia da primeira parte do livro de que a morte seria algo indesejável aos homens e o mundo melhor seria se ninguém morresse e as pessoas durassem para sempre; uma alegoria que expressa a ideia de medo e repulsa, com o passar a da história, a morte resolve mudar a sua estratégia que acaba não surtindo efeito naquele país em virtude das adaptações que eles fizeram. Então, a morte resolve mandar uma carta lilás que dizia a data que a pessoa morreria com uma semana de antecedência. Essa notícia acaba sendo transmitida por um meio de comunicação importante no país, o que ocasiona uma ansiedade grande entre as pessoas de olharem sempre a sua caixa de correspondência, se essa carta lilás estaria lá ou não; além de outros acontecimentos que contribuem para essa ideia de ansiedade nas pessoas. Desse modo, as grandes empresas funerárias acabam tentando tirar vantagem disso e vários acontecimentos intrigantes acabam acontecendo com essa nova estratégia da morte.

Vale ressaltar que dessa segunda vez, dentre as intermitências da morte, ela começa a ser retratada como uma mulher, desconstruindo todo o imaginário proveniente da época medieval e de cunho religiosa de medo sobre a morte e, ao passo que se vai percebendo a sua importância na vida das pessoas, a morte passa a ter essa alegoria atraente e encantadora. Chega até ao ponto de conhecer um violoncelista por quem se interessa e acaba se envolvendo por conta da sua proximidade e também pela sua vida musical e privada, além de sua fisionomia. O final do livro é um dos momentos mais bonitos e, sem querer entregar as últimas páginas, também marca o desenrolar da história em que a morte encontra a vida e elas se apaixonam, isso numa linguagem interpretativa e de análise minha.

José Saramago

Por fim, como já devem saber, a linguagem do livro não é difícil, mas às vezes causa estranhamento porque é português de Portugal, além de que o Saramago não costuma obedecer as regras gramaticais de ponto e vírgula, tornando a leitura, para quem nunca o leu, um pouco mais dificultada, mas ao mesmo tempo é atraente e deixa a leitura prazerosa. No ensaio, há vários recursos alegóricos não só da morte, mas também de outros temas que podem ser identificados com metáforas ou pelas próprias alegorias que o Saramago utiliza convergindo uma ideia muito complexa em outra mais enfática e simples de compreender. Não é tido como o melhor livro escrito por ele, pois os dois mais elogiados são: “O memorial do Convento” e “Ensaio sobre a Cegueira”; no entanto, pela escrita e pelas ideias, esse livro se aproxima muito bem de uma ótima literatura sem requintes excessivos ou numa escrita sofisticada e quase incompreensível.

Boa Leitura!