02 março 2014

O velho Junky - William Burroughs



2014 é o ano de Centenário do escritor beat William S. Burroughs, nascido em St. Louis, nos EUA. Mudou-se para Nova York e conheceu Jack Kerouac e Allen Ginsberg, tendo iniciado sua carreira na literatura na década de 1940. Chegou a ser preso por traficar narcóticos, bem como por utilizar drogas pesadas. Em 1951, matou sua esposa por acidente, com uma arma de fogo. A partir desse fato, Burroughs falou que esse fator fez com que ele engrenasse na carreira de escritor. Além de Junky, outros trabalhos notáveis são Almoço nu, O gato por dentro e Cartas do Yage. Era amigo de artistas famosos, como Andy Warhol e Patti Smith. Faleceu em 1997, na cidade de Lawrence, Kansas. Uma particularidade sua é que era apaixonado por gatos.

E para comemorar seu centenário, nada melhor que resenhar uma obra sua. Junky é o segundo livro que leio dele. Sua publicação original data de 1953, depois de ter vários trechos excluídos, e fala sobre a experiência de Burroughs com as drogas. De usuário passou a traficante de morfina. No decorrer da leitura, o autor explica até como os junkies conseguiam receitas médicas para adquirir morfina. Se um local já não tinha mais como fornecer a droga, eles rumavam para outro. 


A narrativa se dá em primeira pessoa, e por vezes, é como se Burroughs falasse com você. Ele relata de maneira incisiva sua jornada em busca da droga, retrata sua infância e relações com a família, com seu 'ao redor' e de como conheceu o vício. Nascido em 1914, conheceu o junk durante a guerra, em meados de 1944 ou 45. Sua busca incansável por seringas a fim de preparar as doses e vendê-las lhe rendia situações arriscadas, em que por muitas vezes acabava sendo pego pela polícia. Outro ponto interessante no livro é quando ele fala que tentava se desvencilhar do junk e se utilizava de drogas mais leves ou comprimidos a fim de encerrar o vício. Passado algum tempo 'limpo', logo voltava a se picar. 


Os relatos sobre o meio junkie são bem crus e intensos. Sexo, drogas, propinas, a sujeira das ruas e dos médicos que vendiam às escondidas as receitas médicas, os períodos de abstinência em clínicas de reabilitação, todos esses fatores são tão bem detalhados por Burroughs que você se imagina vivenciando tudo isso. A leitura é fluída, agradável, embora tenha temática tão pesada. Ele fala sobre seus fregueses, cada qual com características distintas, sobre os 'caguetes', que fingiam comprar para consumir a droga mas na verdade, o deduravam para a polícia. Havia a dificuldade de conseguir passar as receitas nas farmácias, que não queriam aviá-las pois sabiam que o suposto cliente era na verdade um viciado ou traficante.

Vários termos até então desconhecidos por mim me foram apresentados: o próprio termo que dá nome ao livro, junky, fissura, nomes de drogas menos conhecidas e substâncias igualmente viciantes, bem como as 'manhas' para se conseguir a droga nas ruas e as maneiras de se injetar. O livro acaba cumprindo um papel de 'guia', embora de forma involuntária, beirando o aliciamento. [mas não vou me drogar por ter lido, ok? rs]. Mas de algum maneira, temos um paradoxo: Burroughs afirma que a droga não seria uma forma de prazer, e sim um meio de vida. Minha interpretação é de que é algo que não se faz para melhorar de vida, e sim para suportá-la. 

Um dos trechos que mais me chamaram a atenção foi quando ele falou sobre as tentativas de largar a droga. Que por mais que você tente, sempre arranja um motivo de voltar a se picar.


"Quatro dias depois eu estava em Cincinnati, eu estava sem junk e sem força para sair do lugar. Nunca soube de nenhuma cura autoadministrada que funcionasse. Você sempre acha motivo pra um pico extra, o que requer cada vez mais junk. No fim, o junk acaba antes do previsto e você ainda está dependente." 

No final do livro, Burroughs quer partir rumo ao desconhecido, e se abre a novas perspectivas de experimentação. Dá um leve prelúdio do que almeja, o Yage, outra droga que ele ouviu falar e que existe na Amazônia. Mas isso é tema para outro livro [que será minha próxima leitura do 'Old Bull Lee' - leitores de On the Road entenderão...], e quem sabe, para uma próxima resenha... 

Não poderia deixar de falar que essa edição da Ed. Má Companhia é linda. A introdução é de Allen Ginsberg [outro escritor beat] e traz uma seringa bastante sugestiva. Apesar do verde gritante, é uma edição bem bonita pra se ter na estante...