08 março 2014

Por toda a eternidade, de Kristin Hannah

Não sabemos lidar com a transitoriedade, com a ideia da morte e do fim. Esse é um dos motivos de sucesso dos "temas apocalípticos" e suas profecias do extermínio humano. O discurso do fim catastrófico está presente no cinema, música, literatura, artes e, em especial, em muitas pregações religiosas. De forma mais concreta, a sensação de perda e fim invade nossas relações sociais por meio do luto.


A morte de um ente querido nos tira o chão, desequilibra o juízo, faz sangrar e gritar. Nos tornamos pequenos, infelizes e ovelhas desgarradas sem a presença da pessoa que nos é tão essencial. Como seguir em frente? Os profissionais com especialidade na área de Tanatologia devem escutar essa pergunta frequentemente. E é difícil encontrar alguma resposta. A escritora norte-americana Kristin Hannah faz essa mesma pergunta ao leitor no livro "Por toda a Eternidade" (original Fly away, tradução de Paulo Polzonoff Junior, editora Novo Conceito, 2014, págs. 400), uma obra sobre a dor esmagadora do adeus e as diversas tentativas de superação que somos obrigados a empreender se quisermos continuar respirando.

Na história, a famosa apresentadora Tully Hart perde a grande amiga, Kate Ryan, vitimada pelo câncer. Kate é a bússola, o farol, os pés, mente, coração, alma e chão de Tully. Com essa perda, ela desaba. O marido e os filhos de Kate enfrentam a dor de forma cortante e silenciosa. Absolutamente ninguém da família consegue encarar a partida da mulher que os unia, fortalecia e amava incondicionalmente. Ao morrer, Kate deixa dois gêmeos com idade inferior aos 10 anos e uma adolescente de 16, Marah (minha xará), que sofre o baque de forma mais intensa.

Desorientada, a menina acaba caindo na lábia venenosa de um sujeito problemático, transformando a vida de toda a família em porões do inferno. Tully, amiga da família e madrinha de Marah, percebe sua vida de cabeça para baixo após a morte da grande amiga, perdendo a carreira de sucesso e consumindo remédios de forma compulsiva. No histórico da apresentadora, a rejeição começou com o abandono da própria mãe, culminando na tentativa desesperada de Tully em conquistar o amor dos outros. Só Kate conseguia escutar e acalmar sua dor. Sem ela, a apresentadora e sua “família adotiva” precisarão encontrar novos caminhos para alcançar a felicidade e a paz.

Kristin Hannah

É neste mundo de silêncios, sentimentos não ditos e diálogos interiores que Kristin Hannah continua apostando depois de Jardim de Inverno, lançado na versão brasileira pela editora Novo Conceito no ano passado. Outra característica marcante na escrita de Hannah é o fato de dar voz aos diferentes personagens, transformando-os em narradores-participantes. Idas e vindas na ordem dos acontecimentos também chama bastante atenção, prendendo ainda mais a atenção do leitor.

Apesar das quatrocentas páginas, o livro flui rápido, evoca temas interessantes e está próximo da realidade do leitor, diferente de Jardim de Inverno, uma obra mais pontual. Gosto da forma que Kristin Hannah escreve e da sutileza utilizada para abordar momentos tão humanos. Leitura que não traz arrependimento. Aproveite para praticar a emoção e usar aquela caixa de lenços esquecida no canto do armário.