06 abril 2014

Daytripper



"- Eu não gosto de morte.- Na verdade ninguém gosta. Mas a verdade e, goste ou não... todo mundo morre." 

Fazia um tempo que eu não fazia uma postagem sobre quadrinhos e muitos que visitam o blog e me conhecem sabem da minha paixão por esse tipo de leitura, pois foi através deles que eu aprendi a ler, que criei o hábito da leitura, graças ao incentivo dos meus pais... Geralmente quando penso em fazer um post sobre uma obra específica, fico pensando sobre qual delas falar, em virtude de já ter lido algumas a um bom tempo. Nunca me atrevi a escrever minhas impressões quando estas ainda estão 'frescas'. Hoje é uma exceção. Acabei de ler em pdf a história Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá, que possui o selo Vertigo, da Ed. Panini Books e senti, vejam bem, senti a necessidade de metralhar pelos dedos tudo o que achei e me impressionou nessa obra, que até agora me deixou com uma sensação terrível de angústia no peito.
A leitura foi ruim? De modo algum. Nem tudo o que me angustia é ruim. Às vezes, entristecer não é a pior das coisas, e quando se trata de minha pessoa, é quase como se me sentir triste me fizesse bem... Pois então...

Voltando a Daytripper. É sobre a história de um homem chamado Brás, que sonha em escrever um livro mas trabalha num jornal fazendo obituários. O clima de morte permeia todo o quadrinho. E a cada capítulo [são 10 ao todo], acontece algo com Brás, em diferentes épocas de sua vida. Numa das edições, ele tem 41 anos, na outra, deu o primeiro beijo em sua prima, ainda na infância. Em outra, ele tem 76, e a linearidade da história vai se mesclando, a história não segue uma cronologia de forma ascendente [infância, vida adulta e velhice]. Apesar disso, de maneira alguma você se perde na história.



Conhecemos várias pessoas que fazem parte de seu cotidiano, mulher, pais, seu amigo Jorge [fotógrafo], o filho Miguel... A idéia de cada capítulo é de contar um trecho da vida de Brás como se fosse o último de sua vida. A morte permeia todo o capítulo, seja pelas pessoas sobre as quais ele escreve seus obituários, ou por acontecimentos em sua própria vida. Não há finais felizes, em cada capítulo a morte aparece de alguma forma...

Brás é um homem solitário, sonhador, que quer falar sobre a vida mas vive se deparando com a morte. A cada seqüência de capítulo, a história 'recomeça' de algum ponto de onde parou no quadrinho anterior pra dar continuidade à história, 'como se nada houvesse acontecido na anterior'. Sem delongar em minhas conjecturas, a fim de não soltar spoilers e fazer o leitor perder a graça da leitura, o que posso dizer é que os autores conseguem levantar uma reflexão ao leitor por meio do personagem principal: de que devemos viver nossa vida como se fosse o último dia dela; que cada momento, por mais banal que seja, traz em sua 'aparente irrelevância' algo crucial para o desfecho de nossas vidas, e que a partir de certas escolhas que fizermos em determinados pontos de nossa existência, algo será desencadeado de forma decisiva mais a frente...

Questões como livre-arbítrio e predestinação nos são jogadas de forma confusa e enigmática. Será que nossas escolhas determinam nosso destino? Ou será que apesar de tudo o que fizermos para mudar certas situações, tudo tende ao fado? Só lendo vocês poderão descobrir e daí tirar suas próprias conclusões...



Daytripper Ed. 4 - capítulo: 41

Particularmente um dos mais chocantes capítulos foi o número 4, intitulado 41 [os títulos são números correspondentes à idade de Brás naquele momento em que se conta a história]. Seu filho Miguel ia nascer. Mas nesse mesmo dia, a morte lhe bate à porta de maneira terrível... Em um dia, Brás passa por um paradoxo extremo, que deixaria qualquer um desesperado. Me identifiquei com sua confusão. Lendo esse capítulo, meio que me senti na pele de Brás a respeito do que houve com ele no mesmo dia. Uma alegria extrema por causa de um nascimento e uma tristeza infinda por uma morte inesperada...

No meu caso, não foi num único dia, e sim num ano, o último passado. 2013 foi um marco pra mim: o nascimento do meu primeiro sobrinho a quem tanto amo como se fosse meu filho [Miguel, outra coincidência pelo nome do filho de Brás se chamar Miguel] e a morte brutal de meu tio Renato, poucos meses depois... 
2013 foi pra mim um ano que não sei dizer se foi bom ou ruim. Como posso dizer que foi o pior da minha vida se Miguel veio ao mundo? E como posso dizer que foi o melhor se uma das pessoas que eu mais amava foi assassinada? 
Ler esse quadrinho DOEU. 
Ao menos, não terminei como Brás...
AINDA...

"A vida é como um livro, filho. E todo livro tem um final. Não importa o quanto goste dele... você chegará à última página... e ele vai acabar. Nenhum livro está completo sem o final. E quando você chega lá... só quando você lê as últimas palavras... você vê o quão bom esse livro é. Parece real. [...]- Bem, apenas imagine onde gostaria de estar... e leia a estória até o final."