20 abril 2014

Jack Kerouac - Minha paixão 'beat'...




"Sempre considerei escrever meu dever na Terra. E também pregar a bondade universal, que críticos histéricos não foram capazes de descobrir sob a frenética atividade das minhas histórias verídicas sobre a geração beat. - Na verdade, não sou um beat, mas sim um estranho e solitário católico, louco e místico..."

Eis uma phrase perfeita que define Kerouac. Confesso que demorei um bom tempo pra tentar escolher entre as inúmeras quotes grifadas em meus livros, alguma que se encaixasse para defini-lo tão bem. Em 12 de março do ano de 1922, na cidade de Lowell, em Massachusetts, nascia o grande Jack, aquele que viria revolucionar o mundo literário com um estilo único, original e cru de escrita. Filho de um tipógrafo, adorava passear pelos campos e margens de rios em sua cidade. Em seu quarto, criava diários e jornais com assuntos desportivos descritos por ele de forma peculiar. Conheceu os escritos de Jack London aos 18 anos e decidiu dali que deveria ser escritor. Creio que o espírito aventureiro de seu xará tenha contribuído para despertar seu próprio anseio de também correr o mundo, de colocar o 'pé na estrada'... 

Teve Hemingway e Saroyan como influências literárias. Viveu com a mãe a maior parte de sua vida, quando não estava percorrendo o país, como um Viajante solitário. Seu pai havia morrido de câncer na época em que a Segunda Guerra devastava a Europa. Atravessou os EUA de trem, pegando caronas com desconhecidos, dormindo sob as estrelas, tendo o céu limpo e sem nuvens como cobertor em noites longas e frias... Viajou pela Europa, foi ao México, flertou com o budismo. Suas experiências com drogas lhe renderam amizades com outros grandes nomes da geração beat - Allen Ginsberg, Will Burroughs, Neal Cassady. Seu primeiro livro foi escrito em apenas três semanas, usando uma máquina de escrever quase ininterruptamente... 

Você pode encontrar em seus livros ferrovias, vagabundos sem lar, misticismo, drogas, montanhas, viagens... em suma, um resumo de vida percorrendo lugares estranhos, desconhecidos, tendo como única companhia a poesia, descrita de forma leve, natural e sem preâmbulos, cenários descritos em fluxos de consciência, praticamente sem vírgulas, sem fôlego, findando em reticências... A prosa espontânea de Jack Kerouac é fascinante.


Route 66

Por indicação de um querido amigo, soube da existência de On the Road [o tal livro escrito em três semanas]. Me apaixonei pela forma fluída de escrever de Kerouac. As aventuras cruzando o país pela Rota 66, os amores intensos e breves, a lealdade com seus companheiros de viagem, as árduas horas de trabalho em campos de algodão... Tudo isso ficou impregnado em minha mente e a partir dali, percebi que havia sido seduzida pela obra do autor. Depois de um tempo, li Tristessa, meu segundo livro, e me senti entorpecida pela sua relação com a personagem que dá nome ao livro... Parti para Despertar: uma vida de Buda, e sinceramente, foi o único livro dele que eu não lerei novamente tão cedo. Achei a filosofia complexa demais. Talvez em um momento mais oportuno eu consiga entender o que Kerouac quis passar com ele, ao escrevê-lo... Li também Cenas de Nova York e outras viagens, e apesar de curtinho, é um dos meus livros preferidos. Fala 'basicamente' de viagens do autor pelas montanhas, mas escrito de uma forma tão estonteante que acho impossível não se envolver e se imaginar subindo as encostas junto com Jack. 

Capa de Cenas de Nova York e outras viagens

"Nenhum homem deveria passar pela vida sem experimentar pelo menos uma vez a saudável e até aborrecida solidão em um lugar selvagem, dependendo exclusivamente de si mesmo e, com isso, aprendendo a descobrir sua verdadeira força oculta. - Aprendendo, por exemplo, a comer quando tem fome e a dormir quando tem sono." 

Kerouac é poético, apaixonante, sua obra parece um devaneio... Ao ler seus livros, penso que ele conversa comigo, usa palavras bonitas para discorrer sobre um fator corriqueiro. Ele consegue transformar em belo o 'comum'.

minha [ainda] modesta coleção...

"Eu simplesmente me deitava nos campos da montanha ao luar, com a cabeça na grama, e ouvia o reconhecimento silencioso das minhas angústias passageiras." 

Posteriormente li O viajante solitário e ganhei esse ano como presente de aniversário Os vagabundos iluminados. Amei ambos. Pretendo ler agora Satori em Paris, Visões de Gerard e O livro dos sonhos. Mas afinal, o que seria a Geração beat? Eu falei sobre seu 'criador' sem expor a 'criação'. Beat seria a batida, exaustão, porrada ou um misto de todos esses elementos para designar um estilo de escrita que 'pulsa' com o leitor, que o transporta para um universo paralelo alucinógeno. Bem, eu diria que essa é a minha definição, é como a Geração Beat se mostra pra mim, Maria Valéria. É algo também como cadenciar as palavras, seguir a trilha, cruzar o mundo. Sei que estou sendo poética demais, mas me sinto assim quando falo sobre 'beat'... enfim... Esse espírito de beatitude e epifania eu consigo captar na escrita de Kerouac. Me faz ter vontade de jogar uma mochila nas costas e seguir rumo ao desconhecido...

Em 1969 Kerouac veio a falecer. Com apenas 47 anos, a estrela beat se apagava, devido a problemas com álcool. Depois de ter voltado às raízes católicas, de ter renunciado a tudo que vinha sendo o estilo de sua vida, de ter se afastado de seus amigos beats, e de seus pensamentos loucos, líricos, solitários... Morreu, mas deixou um legado para a literatura americana, que se estendeu ao mundo...
Kerouac pegou 'a estrada'... 



"Suave é o chuviscar que perturbou minha calma..."