22 abril 2014

Revisitando Histórias em Quadrinhos

O texto de hoje foi escrito pelo colaborador Fábio Michelete.


Tenho apenas duas coleções. Uma de selos e outra de quadrinhos. Tive interesse pela filatelia, seguindo o comportamento de vários amigos que lá por 1988 eram dedicados ao tema, mesma época em que comecei a curtir comprar, ler e guardar quadrinhos. 

A coleção de selos da maioria dos amigos era modesta como a minha, com uns selos ganhados e trocados, outros comprados. Porém, uma delas superava a todas em quantidade e variedade. A coleção deste amigo era mais diversa e rica, porque seu pai havia reunido selos numa caixa de sapato durante a vida toda. Ao longo das inúmeras arrumações de casa, mudanças de cidade, mudanças de vida, mudanças de foco, ele perseverou, preservando sua caixa de sapato cheia de selos.

Foi admirando o poder deste gesto, que decidi guardar minhas coleções. Por simples que fossem, seriam antigas e raras quando meu filho se aventurasse em continua-las. Ele tem quatro anos agora, então não faço ideia se um dia ele continuará a coleção, ou se apenas vai joga-la fora ou vende-la. De toda forma, preservei meus selos e meus gibis (como chamávamos antes de as novas gerações inventarem nomenclaturas mais elaboradas), e espero ter a chance de entregar a ele quando for mais velho.

Meu interesse por quadrinhos aumentou quando um amigo daquela época me mostrou que os quadrinhos poderiam ser mais do que “Turma da Mônica”. Passei a colecionar as revistas dos heróis da Marvel (e uns poucos da DC), em especial as histórias do DEMOLIDOR e do JUSTICEIRO. Gostei no jeito “cinematográfico” de contar histórias, dos roteiros radicais, e dos atos de heroísmo. Fantasiei ter poderes e esconder minha identidade secreta, que quase sem querer seria eventualmente descoberta pela garota de quem eu gostava. Quem quiser dar uma olhada na coleção, basta visitar a estante de quadrinhos no meu Skoob.

Há pouco mais de um mês, um conhecido casou, mudou para um apartamento pequeno e foi vencido por um ultimato da esposa. Aceitei imediatamente a honra de ganhar sua coleção. Guardaria-a com cuidado, junto da minha, não antes de cadastra-la na minha “estante”. Para fazer isto, além de localizar os títulos, era importante lê-los. Fazia mais de vinte anos que eu não abria um gibi.

Da experiência, um bom e um mau resultado. Começando pelo mau, NÃO AGUENTEI ler X-MEN. Terei mudado eu ou a linha editorial? Provavelmente os dois. Achei que eles só pensavam em lutar, com bravatas babacas contra os inimigos: “isso porque você ainda não provou meus poderes”. Frustrantes também as experiências com o HULK, QUARTETO FANTÁSTICO, e apenas suportáveis com HOMEM-ARANHA. Havia pouco DEMOLIDOR e nenhum JUSTICEIRO, infelizmente.

E a boa experiência? SPAWN!!! Não existia no tempo em que eu acompanhei, então li quase a coleção toda sem parar, até o N100 (faltando alguns). Desenho primoroso, roteiro melhor ainda. Suspense de primeira, uma trama com toques religiosos, outros policiais. O clima é fantástico, te transporta para noites chuvosas e sinistras. SPAWN é tudo o que o Batman tentou ser, sem conseguir.

“Sirenes distantes, gritos abafados e suspiros de amantes rompem o silêncio noturno. Uma voz flutua acima das demais, ecoando pelas trevas. Suave como um sussurro e poderosa como um trovão. Você pode ouvi-la? - Este é o destino que eu escolhi. Este mundo e suas sombras me pertencem. Agora e para sempre...eu sou o SPAWN!”

Não sei se há esperanças para o velho leitor de quadrinhos que existe em mim. Mas este “revival” de leituras de gibis me ensinou uma coisa nova. A boa literatura não está apenas nos livros clássicos. Ela também pode se apresentar numa história ilustrada, na crônica da revista semanal, num capítulo inspirado de novela, num filme que nos marca. Basta não termos preconceito e direcionarmos nosso olhar sedento, em busca daquele detalhe que vai prender nossa atenção. Contar e ouvir histórias está em nós de maneira indelével.

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