10 abril 2014

Um relato pungente e desesperado de uma refém de guerra... A casa do céu, de Amanda Lindhout.



"Na casa queimada, eu tomo o café da manhã.
Entenda: não existe casa, não existe café da manhã. Mesmo assim, aqui estou."
- Margareth Atwood, Morning in the burned house.


Eis a epígrafe do livro A casa do céu. Partindo dessa premissa, imaginei o que estaria por vir na leitura desse livro, publicado pela Ed. Novo Conceito. Lançado no final do ano passado aqui no Brasil pela editora, a autora Amanda Lindhout descreve em quase 450 páginas toda a trajetória de sua vida, desde pequena quando sonhava em conhecer o mundo, até o momento em que pôde tornar seu sonho realidade, e viveu o maior pesadelo que um estrangeiro poderia enfrentar num país que vive em conflitos de guerra: sequestro.

Desde pequena, Amanda teve uma infância mergulhada em revistas National Geographic e imaginava estar em vários lugares que aquelas imagens representavam. Quando começa a trabalhar como garçonete num pub, junta suas gorjetas e financia uma viagem com o namorado para a América Latina, como mochileira. Mesmo com os contratempos na viagem e a descoberta de não-tão-perfeição-assim que uma estada em outro país poderia proporcionar, ela se apaixonou pela experiência e acaba juntando dinheiro para outra viagem, dessa vez para a América Central. Com o fim do relacionamento, ela viaja com uma amiga, depois passa a cruzar as fronteiras sozinha, conhecendo várias pessoas de todas as partes do mundo. Se envolve com algumas delas, inclusive, mas nada muito especial. O que vale para Amanda é realmente a sensação de liberdade de vencer mais uma fronteira, de somar mais um país a sua lista de visitados. Em 4 anos, ela já havia entrado em mais de 40 países ao redor do mundo.

No extremo Oriente, ela sofre na pele o preconceito por ser mulher em algumas culturas como Bangladesh, em que é 'vetada' nos hotéis por estar viajando desacompanhada de um homem [marido ou irmão], conhece a religiosidade desses países, e se depara também com as dificuldades dos menos afortunados que lá vivem. 
Volta e meia ela retorna aos EUA a fim de conseguir mais gorjetas para financiar suas viagens. Em sua ida ao Paquistão, após enviar e-mail para sua mãe avisando seu itinerário, Amanda se vê tentada a entrar no Afeganistão, Iraque e países que vivem o pesadelo de sofrerem atentados terroristas e guerrilhas étnicas, entre outros conflitos. Numa dessas viagens, conhece um rapaz, fotógrafo freelancer, que se envolve com Amanha e lhe ensina como ela pode custear suas idas e vindas vendendo fotos para jornais e revistas. Nigel segue com Amanda por vários locais, mas depois que ela descobre algumas coisas sobre a vida ele, o relacionamento acaba esfriando. Mas de posse de uma câmera, ela segue o conselho dele e vai trabalhar como jornalista e fotógrafa de guerra, em países mais 'perigosos'. Conhece vários profissionais do meio, se emprega em um jornal tendencioso, enfrenta alguns olhares de desprezo de alguns parceiros de profissão, mas não desiste. 

Tempos depois ela convida Nigel para mais uma viagem, em que recebe vários conselhos para não ir: Somália. Ela o convence de que uma cobertura sobre a situação do país pode trazer bons frutos para ambos, e ele acaba aceitando, embora apreensivo. 
No quarto dia na Somália, eles são sequestrados, e a partir daí, o livro se concentra nesses dias nebulosos em que estiveram cativos, sofrendo humilhações, violência, fome, desespero, medo de morrer, saudades de casa, tensão em negociar seus preços com as autoridades de seus países [Nigel é australiano]. Amanda sofre todo o tipo de horror que o leitor imaginar, desde castigos psicológicos a físicos. Se converteram ao islamismo, numa tentativa de se salvarem dos sequestradores, tentaram fugir quando perceberam que 'o cerco estava se fechando', aprendeu um pouco de árabe...Enfim, ela fez de tudo para não ter seu pescoço degolado. As negociações com suas famílias não chegavam ao fim, as famílias deles ficaram de mãos atadas, tentando o que podiam para resgatar os dois, levantando o valor que os raptores exigiam. 
Nesses 15 meses em cativeiro, Amanda se refugiava em suas lembranças a fim de anestesiar seu próprio medo. Separada de Nigel, se comunicava com ele por sinais, bilhetes escondidos no banheiro, pelas paredes dos quartos. Amanda seguia em frente com esperança, astúcia, buscando a compaixão daqueles homens, alguns garotos inclusive, que ela sabia que estavam naquela situação devido aos próprios problemas pessoais, que apesar de serem seus raptores, por baixo daqueles rostos juvenis, haviam seres humanos como ela, e que ela deveria perdoá-los por todo o mal que estavam fazendo a ela e Nigel. Perdida nesses pensamentos, Amanda tentava sobreviver...

O livro é denso, cheio de momentos fortes, faz o leitor se colocar no lugar da protagonista. Eu creio que não suportaria o que ela passou, não creio ter toda essa força de vontade e resistência... Uma das passagens que mais me marcou foi num momento em que a levaram de carro até o deserto, e fizeram com que ela falasse com a mãe ao telefone, implorando para que ela pagasse o resgate ou ela seria morta. Ela viu a morte naquele momento, da forma cruel em que as vítimas de sequestro são condenadas pelos extremistas religiosos muçulmanos. O que mais me chocou, além do ato perverso em si, foi a data em que isso aconteceu: uma noite de 13 de dezembro, em 2008. Dia do meu aniversário. Imediatamente veio à minha cabeça o que eu estava fazendo no dia. Pensei: enquanto eu comemorava meu aniversário com amigos, uma canadense estava prestes a ser degolada viva na Somália... A coincidência me perturbou demais. Sei que todos os dias, em aniversários de todo mundo do planeta, pessoas nascem e morrem, mas sendo no meu dia, em particular, senti uma sensação de angústia tardia. O fato me tocou profundamente, abalou meu estado de espírito... A leitura partiu do 'entretenimento' para uma reflexão pessoal profunda... 

Em suma, é um livro que merece ser lido. Amanda foi perseverante, e o desfecho de sua história precisa ser lido [mas não através de minha resenha]. É um livro que toca, choca, nos põe à reflexão, nos ensina questões sobre compaixão, e de como sobreviver em meio ao caos, de como não perder a cabeça em situação tão extrema... Eu não queria dormir, só pra ler o livro todo logo, devorar suas páginas intensas... O terrorismo nos foi mostrado de um ângulo íntimo, e não da forma como nos chega, pelos 4 ou 5 minutinhos de uma matéria no jornal sobre 'notícias internacionais'... a perspectiva é mais profunda, mais humana...