04 junho 2014

Água para elefantes...


"A idade é um ladrão terrível. Justamente quando se começa a entender melhor a vida, a idade nocauteia suas pernas e arqueia suas costas. Ela lhe traz dores, lhe confunde a cabeça e silenciosamente espalha o câncer em sua esposa.
Metastático, disse o médico. É uma questão de semanas ou meses. Mas minha amada era frágil como um passarinho. Ela morreu em nove dias. Depois de 61 anos juntos, ela simplesmente apertou a minha mão e expirou.
Embora haja ocasiões em que eu daria tudo para tê-la de volta, foi bom ela ter ido primeiro. Perdê-la foi como ter sido partido ao meio. Naquele momento tudo acabou para mim, e eu não gostaria que ela passasse por isso. Ser sobrevivente é uma droga.
Eu achava que preferia morrer à outra opção, mas agora já não tenho mais tanta certeza. Às vezes, a monotonia dos bingos, dos saraus e dessa gente antiga e embolorada, estacionada no corredor em suas cadeiras de rodas, me faz desejar a morte. Principalmente quando me lembro de que sou um deles, jogado de lado como se fosse uma quinquilharia inútil.
Mas não há nada que se possa fazer em relação a isso. Só me resta passar o tempo esperando o inevitável, observando os fantasmas do meu passado se agitarem em volta do meu presente insignificante. Eles se chocam e se esbarram à vontade, principalmente por não haver nenhuma resistência. Parei de lutar contra eles.
Neste momento, eles estão se agitando ao meu redor.
Sintam-se à vontade, rapazes. Fiquem mais um pouco. Ah, desculpem - vocês já estão à vontade.
Malditos fantasmas!"
Bem, eis um livro que me pegou de jeito logo no início da leitura: Água para elefantes, da autora Sara Gruen, e publicado pela Ed. Arqueiro.  Trata-se da história de um senhor bem velhinho, Jacob Jankowski, que durante sua mocidade teve sua vida completamente virada de cabeça pra baixo após a trágica morte de seus pais num acidente de carro. Sem dinheiro, casa nem parentes que lhe ajudassem, ele acaba 'pulando' num trem e descobre que é um circo chamado O Esquadrão Voador do Circo Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra. 

Estudante de veterinária, logo Jacob vê uma oportunidade de não passar fome e ter um teto onde dormir nesse período em que os Estados Unidos passavam pela Lei Seca, onde bebidas destiladas eram vendidas às escuras, fugindo da fiscalização. Logo Jacob percebe que conviver com aqueles artistas, o dono do circo e de outros personagens não será tarefa fácil, mas com o decorrer do tempo ele acaba fazendo fiéis amigos... E é deles que ele vai precisar quando se envolver com August, o desprezível chefe do setor de animais, para o qual Jacob foi designado... August é o tipo de ser humano covarde, cruel e detestável que faz o leitor criar ódio instantâneo. Ele é casado com Marlena, que suporta ao longo dos anos um marido que oscila lapsos de gentileza e brutalidade extrema e incontrolável. E daí se imagina o que vai ocorrer entre ela e Jacob, não? 

Uma personagem que me cativou foi Rosie, a elefanta que o dono do circo, Tio Al, compra e no começo, todos acham que foi um péssimo negócio. Futuramente, eles descobrem o porquê da elefanta parecer tão 'burra'. Mas não vou contar porque é spoiler... Rosie é um animal admirável e me revoltei com a forma que August lida com a pobrezinha. É de partir o coração os maus-tratos que ele a submete... Outro animal que gostei muito foi Bobo, o orangotango. Dócil e inteligente, assim como a maioria dos animais do circo, que cativam Jacob e ele se sente mais revigorado em lidar com eles do que com certos seres humanos daquele circo...

A história alterna entre os períodos da juventude e a velhice de Jacob, que se põe a pensar em toda sua vida, e em como ele se encontra hoje, numa casa de repouso, esquecido pela sua família. Os fantasmas de seu passado lhe assombram, e durante todo esse tempo, setenta anos, ele nunca tinha falado a ninguém sobre sua vida no circo... É uma narrativa triste, tanto no passado, quanto no presente, e os detalhes da velhice de um senhor com mais de noventa anos envolve o leitor por completo. É um livro bem escrito, com detalhes que fazem você se imaginar na cena, entre os diálogos, sofrendo junto com o casal e os animais... 

Detalhe para umas das partes que mais me chocaram durante a leitura: a alimentação dos felinos... Nem vou soltar nada, pois vocês precisam ler isso... e também sobre os trabalhadores que 'desaparecem' do trem em movimento... é revoltante a forma como essas pessoas são tratadas, por dependerem de patrões ambiciosos que só pensam em privilégios para si... Mas o final, acredito eu, foi satisfatório para esses vilões... Embora ao final do livro eu tenha ficado com uma sensação que poderia ter me surpreendido mais... Ao menos pra mim, o livro terminou sem prantos de minha parte. Foi um final bacana mas que poderia ter me emocionado mais... Se bem que, ao longo da história, eu me envolvi, me toquei e me revoltei... alguns trechos me deixaram realmente hipnotizada e reflexiva...

Foi uma experiência válida conhecer a fundo a história de Jacob Jankowski e seu desfecho não poderia ter sido mais feliz, apesar de tudo...