06 julho 2014

Havana - palco da sexualidade suja de Gutiérrez

Quem me conhece sabe que gosto de uma narrativa suja, degradante, que aborde o cotidiano infeliz do personagem de maneira desesperançada e resignada, mas sem perder o sarcasmo e bom-humor, bem no estilo Bukowskiano de ser. Então, não é surpresa que, ao ler O insaciável homem-aranha [calma, nada a ver com o super herói do quadrinho], do autor Pedro Juan Gutiérrez [já falei dele aqui], fosse ficar excitada com o livro. 

Publicado pela Ed. Companhia das Letras, o livro é uma viagem quase autobiográfica ao universo do narrador/autor, que se utiliza de contos para discorrer sobre sua rotina em um lugar cheio de miséria e pobreza, em Cuba. Personagens que só pensam em sexo e bebidas, em meio a falta de oportunidades num país que vive numa eterna ditadura, em que não há dinheiro suficiente pra se comprar carne para comer, e em que o protagonista precisa se apertar em uma multidão para conseguir ossos e "aparas" a fim de garantir a sopa da noite, tudo isso mesclado a sujeira dos becos imundos de Havana, de 'inferninhos' e botecos frequentados pelos tipos mais escabrosos, que tornam a obra um deleite para o leitor que gosta desse tipo de literatura beirando o subversivo.


A história se passa nos primeiros anos do século XXI, e Havana se revela um cenário decadente, propício ao que Gutiérrez pretende descrever. O primeiro conto narra um acontecimento sórdido [leia-se muito sórdido] ocorrido com uma mulher, numa praça deserta em Nova York. No capítulo seguinte, conhecemos Julia, a companheira do narrador, e que aparece nos capítulos/contos subsequentes. A relação entre o casal é morna, perdeu há muito o viço, e volta e meia o protagonista se depara com outras mulheres, em diversas situações sexuais, todas elas contadas de forma despretensiosa e ao mesmo tempo, ousadas. 

"O casamento destrói tudo. Ou eu destruo tudo. Não sei."
A convivência com os vizinhos, com turistas que aparecem eventualmente em seu caminho, com sua mãe e [poucos] amigos, são retratos da realidade que permeia a cidade, e por vezes o leitor pode se imaginar vivendo nessa atmosfera sufocante regada a cerveja e rum baratas em festas de fim de noite [isso quando a polícia não fecha o local quando o relógio bate meia-noite...]. As calçadas escuras estão apinhadas de casais transando, hétero ou gays, voyeurs se masturbando ao espiar os encontros fortuitos do protagonista com suas amantes. Sombras dançando em meio à escuridão desses locais infectos e ao mesmo tempo excitantes.

E em meio a tudo isso, nosso narrador escreve, e sempre se depara com situações a serem postas no papel. Faz de seu cotidiano uma espécie de diário, e leva o leitor a conhecê-lo de forma mais íntima. 

"Talvez isso tenha me salvado: as bebedeiras, as mulheres, soltar a fúria, mandar tudo à merda, não esperar nada de ninguém. E escrever. Nas madrugadas, bêbado, escrevia contos de tudo o que me acontecia. Era muito divertido. E continuarei. E aqui estou."




Pedro Juan é um escritor cubano, e tem 6 títulos publicados. Entre eles, Trilogia suja de Havana, que já resenhei antes e foi meu primeiro livro lido dele. Foi amor a primeira vista. Costumo me referir ao escritor como o 'Bukowski' cubano, pois sua prosa é deliciosa de se ler, bem no estilo do velho Buk, sujo, depravado e com uma carga de realidade amargurada com pitadas de sarcasmo. Então, recomendo que não deixem de conhecer a 'subversão-literária-sexual-decadente-de-Cuba' nas obras de Pedro Juan Gutiérrez, um cara que foi soldado, cortador de cana, jornalista e hoje vive de escrita e pintura.