17 julho 2014

O Poder da Paternidade - A QUEDA

O texto de hoje é sobre o livro A queda de Diogo Mainardi e foi escrito pelo colaborador Fábio Michelete.
 

Tive interesse por este livro, pela primeira vez, ao assistir ao programa RODA VIVA da TV Cultura, com este autor. Além das habituais polêmicas sobre suas opiniões políticas, o tema central do programa era o lançamento desse seu romance. O autor possui mais outros (inclusive o premiado “Malthus”), além de livros-coletâneas de artigos que escreveu para a revista VEJA.
O retrato do ser humano, é muito interessante. Diogo Mainardi teve a chance de uma educação aprofundada. Leitor de alto nível, desenvolve suas ideias próprias e as apresenta com sua expressão de enfado, segurança e até certa arrogância.

Diogo tem dois filhos, dos quais o primeiro, devido a um erro médico no parto, teve paralisia cerebral, apresentando comprometimentos motores. Após ganhar processo contra o hospital, mudou-se para Veneza, onde já morara, e agora vive tranquilamente, com uma rotina bastante discreta.

“A QUEDA” é sobre sua relação com o filho e suas incapacidades. Mostra de maneira interessante e bem escrita a luta travada por uma mente inteligente, com muitos argumentos, para acomodar a realidade que o aplacou. Mostra como o amor paternal pode transformar a vida de um homem.

A impressão que tive é que até o nascimento do filho e da extrema responsabilidade que isto acarretou, Mainardi vivia como um estranho no mundo. Pessoa com pensamentos próprios e senso crítico afiado, devia se enfadar com nossa cultura medíocre, baseada nas aparências e no consumo. Sua resposta defensiva foi a arrogância, ou intelectualizar-se ainda mais, na vaidade de repudiar e se diferenciar do incômodo à sua volta. Seu filho o trouxe do mundo das ideias:
“Sua paralisia cerebral obscureceu tudo o que eu sempre cultuara. Em particular, a literatura. O que se iluminou – o que se tornou o único foco de minha vida – foi o que ela tinha de mais ordinário, de mais doméstico, de mais familiar.”
Agora reatado com o mundo, com a beleza finita e rara de cada vida, mostra saborear isto a cada dia, acompanhando os tênues progressos de seu filho. Continua cético e incomodado com a ignorância à sua volta, mas agora parece ter encontrado uma razão para seguir. “A QUEDA” é também um tributo ao filho e ao presente involuntário que recebeu.
Continua ciente de sua (nossa) insignificância histórica, mas agora a abraça como uma velha amiga. Diogo Mainardi afirmou no RODA VIVA que este é seu ápice como escritor. Que não fará mais nada “que preste” além deste livro, pois foi completamente sincero ao fazê-lo:
“Para Marcel Proust, a ´vida verdadeira, a única vida plenamente vivida, era a literatura`. Para mim, a vida verdadeiramente vivida passou a ser Tito.”
Ao "desentronizar" a literatura, aproxima-se mais de seus recantos mais nobres e de seus talentos mais raros. Este livro, pela sinceridade ao limite, pela análise ácida de nossas ilusões, pelas referências históricas, ganha-nos pelo estômago, e passa a fazer parte de meus preferidos.

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