23 agosto 2014

Cada Segredo, de Laura Lippman

Desde "Chucky, O Brinquedo Assassino" (1988) e sua sequência interminável de assassinatos macabros, os bonequinhos fofinhos de infância começaram a servir de pano de fundo para histórias de terror. Quem não se lembra das acusações contra o boneco Fofão que, de acordo com testemunhas convictas, era "objeto do demônio", uma espécie de pacto com o sinistro firmado por seus fabricantes? O boneco esconderia um punhal satânico embaixo do pescoço e que serviria para estimular assassinatos. Na época, o boato se espalhou de tal forma que pouca gente percebeu a "semelhança" - assim, só por curiosidade - de Fofão com o boneco cinematográfico Chucky.

Chucky e Fofão

Especulações à parte, o universo infantil foi tomado pelo pânico, terror e sangue frio. Mesmo assim, como podemos acreditar que criancinhas, meros anjos indefesos, sejam capazes de praticar crimes, e ainda por cima hediondos? O filme "O Anjo Malvado" (1993) atira um dardo nessa direção quando surpreende a todos com a história de um menino perverso, estrelado pelo então natalino Macaulay Culkin. Essa mesma reflexão também é levantada pela escritora norte-americana Laura Lippman em seu romance "Cada Segredo" (original Every Secret Thing, tradução de Márcia Alves, Editora Record, 2011, págs. 406), onde um assassinato é cometido por duas garotas de onze anos de idade. No enredo, as pré-adolescentes Alice Manning, uma garota acima do peso, tímida e repleta de complexos, e sua colega, a problemática Ronnie Fuller, fruto de uma família desequilibrada e fora de senso, cometem um homicídio a sangue frio e são condenadas à prisão. 

Tudo começa em uma festa de aniversário: depois de serem expulsas, Alice e Ronnie voltam para casa por meio de uma avenida isolada e perigosa. Decidindo cortar caminho, as duas param diante de uma casa ornamentada e rica, encontrando do lado de fora um carrinho com uma bebê dentro. Alguns dias depois, a bebê, uma garota chama Olivia, é encontrada morta dentro de uma casa abandonada. A culpa recai sobre as duas jovens colegas, culminando em amargos sete anos em reformatórios. Com a liberação delas, muitos segredos obscuros vêm à tona, tendo em vista que novas crianças começam a desaparecer misteriosamente.

A escrita de Lippman é firme, desperta curiosidade e instiga o leitor. Ainda assim, tive dificuldade em seguir o ritmo de leitura em algumas partes, pois a autora aposta em muitos detalhes e torna a sequência cansativa. A biografia de Alice e Ronnie conseguiu chamar bastante minha atenção, já que parecem casos encontrados em prontuários de hospitais psiquiátricos ou instituições de assistência infantil. Além das duas garotas, há personagens secundários com dramas próprios, como a detetive Nancy Porter, encarregada do caso; a mãe de Alice e sua advogada de defesa, além da mãe da pequena Olivia.

A autora Laura Lippman
Laura Lippman também toca em temas delicados, como preconceito de raça - já que a bebê morta era negra - e de classe social - sofrido por Alice e - especialmente - por Ronnie. Dividido em capítulos, Cada Segredo segue em ordem cronológica, com alguns flashbacks importantíssimos para a trama. O leitor também pode dar de encontro com as vozes interiores das personagens, tornando o texto ainda mais coordenado.