25 agosto 2014

Sobre o Caminho de Santiago de Compostela

O texto a seguir foi escrito pelo nosso convidado Fábio Michelete, autor do romance “Aprendi a me Amar – Em busca da felicidade”.


Recentemente, tenho me dedicado a caminhadas longas. Um amigo me introduziu ao grupo, que dedica algumas manhãs a caminhadas, que vão de 15kms a (por enquanto) 41kms.

Quando o corpo atinge seu ritmo ótimo de funcionamento, a mente se equilibra. Com o devido treino, você deixa de lado o que estava fazendo antes e o que fará depois da caminhada, sintoniza com o entorno, mimetiza com ele, você não é mais indivíduo: é natureza, fluindo pela estrada, passo a passo; é sangue, fluindo pelas artérias a cada pulso; é silêncio que a tudo permeia, interrompido pelo ruído de suas pegadas.

A caminhada como transformação. Caminhar por horas tem claras vantagens além da prática esportiva. O peregrino logo identifica a óbvia associação da caminhada de longa distância como uma forma de uma meditação em movimento. Seu expoente cultural máximo é simbolizado pela divulgação e prática dos caminhos de peregrinação – dentre eles o mais famoso – o Caminho de Santiago de Compostela.



“Lendas do Caminho de Santiago” (Editora Madras) é uma descrição de mitos cristãos, coletados por um estudioso da “Rota Jacobeia” (Iacobus é a origem Latina do nome de Santiago). Uma sequência de histórias associadas a monumentos, igrejas, pontes e pontos de interesse no caminho. 

Seguindo a apresentação objetiva do mito, há uma interpretação do autor, tentando extrair algum ensinamento ou atribuir relevância ao mesmo. O autor tenta sugerir uma unicidade simbólica entre os mitos. Como se o caminho e suas histórias tivessem uma coerência, possivelmente de inspiração divina, que explicavam sua importância e longevidade. Essa ideia interessante, provavelmente, é o que explica seus anos de estudo e dedicação ao tema.

O resultado, no entanto, ficou burocrático. Não cheguei a experimentar a unicidade proposta, e algumas das histórias pareceram pueris, cansativas. É importante contextualizar que minha espiritualidade não se traduz muito facilmente nesses referenciais, mas mesmo assim me esforcei, procurando por alguma identificação com minhas experiências de caminhada. Mesmo assim, não consegui ter forte interesse pelo conteúdo do livro. Talvez escrito por um erudito em área tão especifica, tenha reduzido seus raros leitores àqueles com referenciais semelhantes.

A menos que esteja interessado em saber detalhes religiosos do caminho, não recomendo a leitura, pois perde-se aquele frescor de uma experiência vivida. “A lenda de Santa Orosia”, “o cajado de São Francisco”, “O gigante Ferragut”, “O castigo de Santa Columba”, alguma dessas histórias tem raízes fortes para você? Se a resposta for negativa como era para mim...talvez deva tentar outra coisa.

Com um tema simbolicamente tão rico, não é de admirar que tenha sido objeto de ampla literatura e produção cultural. Há guias, descrições de pessoas que fizeram o caminho, dicas, etc. São experiências muito pessoais, mas gostosas de acompanhar. Esbarrei por algumas já: desde uma leitura antiga de “O Diário de um Mago”, que sinceramente foi prazeroso, mas deixou poucas marcas (há anos da leitura) – até o contato mais recente, por acaso, do filme “The Way” (2010).

Cena do filme "O Caminho de Santiago" (The Way) - 2010

Uma metáfora para a vida. O caminho de Santiago, imagino, faz-nos viver o presente enquanto caminhamos por longos 800km, dia após dia. Em seu percurso, você com sua persona: dedicará tempo a ela e suas necessidades? Seus medos? Ou empreenderá a jornada ao desconhecido? Dá pra fazer tudo isso. Dá pra hospedar-se em bons hotéis e fazer turismo, dá pra seguir apenas mais um clichê cultural, dá pra carregar na mala contingências para quaisquer desconfortos. 

Ao final, você colhe o que plantou. Os méritos são concedidos com justiça. Como ao final de uma sessão de cinema, de um período de embriaguez, ou da leitura de um livro, há a difícil reconexão com a vida. O caminho verdadeiro, me disseram é esse que inicia quando se termina a peregrinação. 

Uma alma dedicada ao essencial jogará fora aquilo que você carrega de supérfluo. Sua vida não será a mesma.