12 dezembro 2014

A morte de Ivan Ilitch





- "Assim como a dor piora cada vez mais, minha vida toda foi progressivamente piorando. Há um ponto de luz, lá longe, no início da vida, mas, depois disso, tudo foi ficando cada vez mais negro e afastando-se cada vez mais, em proporção inversa à distância que me separa da morte, pensou Ivan Ilitch. E a imagem de uma pedra caindo em velocidade crescente tomou conta de sua mente. A vida, uma série de sofrimentos cada vez maiores, acelera rapidamente para o final e este final é o sofrimento mais terrível. "Eu estou caindo..."."

A morte de Ivan Ilitch, Tolstoi.



Considerada por muitos como a novela mais perfeita da literatura mundial, A morte de Ivan Ilitch fala sobre a vida insossa de um burocrata russo, que em busca de viver de forma correta e perfeita, de acordo com as convenções sociais é acometido de uma enfermidade que o leva à morte. O livro narra a trajetória de Ivan desde seu último suspiro.

Decerto um dos melhores livros que tive o prazer de conhecer esse ano, A morte de Ivan Ilitch traz críticas à sociedade do século XIX, em que as pessoas buscavam viver da maneira como a sociedade impunha, mesmo que pra isso suas próprias convicções e felicidade fossem para o ralo. A começar pelo enterro de Ivan, pessoas que se diziam suas amigas em vida pensavam em como lidar com o enfastioso ritual fúnebre e todas as suas etapas obrigatórias de prestar pêsames à viúva, velar o morto e seguir no cortejo até o cemitério.


"Agora era ele quem tinha de morrer. Comigo vai ser diferente - eu estou vivo", pensava cada um deles, enquanto as pessoas mais próximas, os assim chamados amigos, lembravam que agora teriam de cumprir todos aqueles cansativos rituais que exigiam as normas de bom comportamento, assistindo ao funeral e fazendo uma visita de condolências para a viúva."

Mas quem foi Ivan Ilitch? Outrora um membro do Tribunal de Justiça, filho de um oficial em Petersburgo, conselheiro de um membro de uma instituição qualquer, dessas que nada servem a não ser para pagar salários nada supérfluos para pessoas supérfluas que mantinham além do cargo supérfluo e alto uma grande patente de status na sociedade. Ivan e seus 'amigos' eram homens da nata, detentores de títulos vazios que os envolviam em reuniões com outros de sua espécie e suas damas pavoneadas, em festas e banquetes regadas a futilidade e fofocas sobre o mais recente escândalo do momento.

Percebe-se uma ironia refinada na escrita de Leon Tolstoigênio e autor dessa grande obra. Ele discorre sobre o cotidiano insosso da sociedade russa daquele período, do qual ele próprio fez parte. Mas, voltando a Ivan: era o filho do meio, seu irmão mais novo era dado à jogatina, o mais velho já seguiria os passos do pai, de não fazer nada e ganhar o suficiente por isso para bancar uma vida de estabilidade. Ivan não possuía a rebeldia do caçula, tampouco a formalidade do primogênito. Educado para o Direito, acabou sendo ajudado pelo pai para ocupar o cargo de secretário particular do governador e depois de juntar seus pertences, se mudou para uma província.

Ivan seguia a vida sem dificuldades, cumprindo suas obrigações, avançando na carreira e gozando de um alto padrão social. Teve algumas mulheres na vida, mas veio a casar com uma que assegurasse um bom casamento, mesmo sem amor ou afinidades. Subindo cargo a cargo, mudando-se com freqüência, Ivan levava a vida de forma medíocre, na realidade. À vista de todos, tinha uma estrutura perfeita e adequada, mas será que era o suficiente viver nesses moldes e ser feliz?

Seu modo de vida era respeitável e aprovado pela sociedade. Para ele isso bastava. A esposa organizava a cama, a casa, lhe deu prole, de acordo com o que o senso comum exigia. Mas Ivan gostaria de inovar um pouco trazendo para sua casa coisas que pareciam originais e únicos, mas que o tornavam apenas mais do mesmo. Na sua tentativa de manter as aparências de refinamento tão cobiçados pela elite, enfeitava sua residência de forma que ela ficasse original, mas no fim acabava sendo mais uma das tantas casas de ricos e falsos ricos, que pretendiam mostrar uma imagem que não correspondia a realidade, na maioria das vezes.

"O maior prazer de Ivan Ilitch era dar pequenos jantares, para os quais convidava pessoas de boa posição social e, assim como sua sala de visitas parecia-se com todas as outras, também suas agradáveis festinhas nada tinham de originais."
Quando ele se dá por doente, logo sua vida vai declinando e se esvaindo. Buscava com amigos médicos alguma informação sobre sua enfermidade [nunca definida], e a medida que o tempo passa, ele piora. Cai acamado, e daí para a morte é apenas um passo... E o tempo que lhe resta passado na cama é que faz com que Ivan finalmente perceba o quão medíocre foi sua vida. Ele entra numa espécie de reflexão sobre suas convicções, seus planejamentos, e o desespero toma conta dele. Ele não aceita que está morrendo. E se sente amargurado em ver que a vida dos outros está normal, ninguém tem pena de sua condição e isso o deixa ainda pior.

"Morte. Sim, morte. E nenhum deles entende, ou quer entender. E não sentem pena nenhuma de mim. Estão todos se divertindo." (Podia ouvir, mesmo com a porta fechada, distante, a cadência de uma música e seu acompanhamento.) "Eles não se importam. No entanto eles também vão morrer. Idiotas! A única diferença é que acontecerá um pouquinho mais cedo pra mim e um pouquinho mais tarde para eles. Só isso. Mas a vez deles vai chegar. Agora, porém, estão se divertindo. Insensíveis!" A raiva cortava-lhe a respiração. Sentia-se insuportavelmente infeliz. "Não pode ser que todos os homens sejam sempre condenados a passar por esse horror!".

E a cada semana, Ivan percebia que os parentes, empregados e amigos ficavam numa torcida silenciosa, de que ele morresse de uma vez e os poupasse de suportar mais aquilo. Injeções de morfina para aliviar suas dores não eram suficientes. Dormia pouco. Um de seus empregados, bastante leal, o ajudava em situações que beiravam o constrangimento, pois Ivan se sentia humilhado de precisar de alguém para ajudá-lo nas necessidades humanas mais básicas. Mas Gerassim nunca reclamava e não abandonou seu patrão em momento algum.

A lembrança de dias felizes se encontrava na primeira infância. Mas quando Ivan olhava pra trás, a vida de adulto já não lhe parecia agradável e perfeita como julgava na época vivida. Seus momentos finais foram dolorosos, Ivan gritou por três dias antes de expirar. E no final, ele sentiu pena de sua família, e viu que deveria mesmo partir, a fim de acabar com aquilo, e também com sua dor... E no fim, ele já não temia a morte, e pôde enfim, compreender a vida...