15 fevereiro 2015

Inéditos e Dispersos... A poesia de Ana Cristina César...

A leitura de Inéditos e Dispersos deixou minha mente completamente dispersa e incoerente, desconecta. Estou me sentindo abalada espiritualmente, perturbada e ao mesmo tempo com uma incrível sensação de entorpecimento. Queria uma máquina do tempo pra voltar ao ano de 1983 e te impedir de saltar daquele 8º andar, Ana Cristina. Você teria escrito mais coisas belas e perturbadoramente sensíveis para mim...

Minha linda edição...

Ana Cristina César foi minha mais nova paixão em 2014. Eu já tinha tido contato com ela antes, quando li A teus pés, mas a leitura não rendeu tanto quanto gostaria, talvez por ter sido feita em pdf, e por isso pretendo [re]ler... Mas ter gasto algumas horas de minha vida perdida em suas páginas 'inéditas e dispersas' foi um deleite imenso...

O livro traz sua obra dividida em etapas, dos anos de 1961 até 1983, ano de sua morte. A obra foi organizada por Armando Freitas Filho, amigo da autora. Ele conseguiu reunir o que Ana Cristina tinha de melhor em seus escritos, numa belíssima edição publicada em 1998, pela Editora Ática... E eu achei essa capa lindíssima...


"Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma Tão distraidamente." abril/68

Foi impossível não me identificar com vários trechos ou poemas completos de Ana C. Ela escrevia de forma intensa, e pude perceber elementos que a convidam para um salto à janela em várias passagens do livro... Premeditação? Quem sabe?

Os poemas possuem uma carga melancólica e ao mesmo tempo, voraz. São textos curtos, porém de uma densidade incríveis... Ana C. toca a alma...

"Sou amativa antes de tudo embora o mundo me condene. [...] Uma lâmpada queimada me contempla. [...]Uma palavra me delineiaVORAZ."setembro/68

Ana C. escrevia desde pequena, e para ela, escrever era uma forma de jogar para fora de si mesma toda a solidão e apreensão de viver. "Angústia é fala entupida." Como afirmava seu amigo e organizador do livro, Armando, ela escrevia versos inquietantes e fora dos eixos. Essa forma de fazer poesia é de uma sensibilidade perturbadora.

A parte final do livro mostra uma pequena biografia de Ana Cristina, bem como fotos de várias etapas de sua vida, desde pequenina, até o ano de seu suicidio, em 1983, quando se jogou da janela do apartamento dos pais, a 29 de outubro... Há também alguns desenhos feitos por Ana C. ilustrando algumas páginas...
Eu poderia discorrer horas sobre as sensações que o livro me trouxe, mas isso seria deveras cansativo aos leitores... quem sabe um dia eu converse com alguém sobre o livro... hehe... Mas recomendo a leitura, ela nos põe a divagar sobre vários aspectos da existência...
Abaixo, alguns trechos que mais me identifiquei...


Ana Cristina César...


"perdi-me agora rabiscando-te." setembro/68


"de sonho em sonho o instante está completo:sons se deitam novos sobre dor tão mansa:"22.5.69


"teu gosto, tua cor, teu som, teu meu"15.6.69


"Não sou idêntica a mim mesmo sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar e sob [o mesmo ponto de vista. Não sou divina, não tenho causa. Não tenho razão de ser nem finalidade própria:Sou a própria lógica circundante."junho/69


"as palavras escorrem como líquidos lubrificando passagens ressentidas."


"imagino como seria te amar:desisto da idéia numa verbal volúpia e recomeço a escrever poemas."


"Não encontro no meio de todas essas históriasnenhuma que seja a minha."

Espero que vocês possam tem a oportunidade de conhecer a obra de Ana Cristina César. Deleitem-se com suas palavras 'inéditas e dispersas...'