23 abril 2015

As ervas daninhas compiladas por Caio Abreu - Ovelhas negras...




E venho através desta resenha mostrar a vocês mais uma obra de Caio F. Abreu, publicada pela L&PM Editores, que me deixou encantada por alguns dias... Costumo render livros de contos o máximo que posso, a fim de aproveitar e saborear melhor a leitura. Com Ovelhas Negras não poderia ter sido diferente...

Ovelhas Negras nada mais é que uma compilação feita pelo autor daqueles textos que ficaram por muito tempo esquecidos em uma gaveta... Textos que ora não se encaixavam num dos outros livros publicados, ora impressos em jornais, muitos deles já extintos, e até alguns que a censura da ditadura militar, época em que foram escritos, não permitiu que viessem a público. Sorte nossa que Caio não costumava rasgar ou queimar seus escritos, por mais bizarros ou surreais, ou até mesmo sem graça ou coerência que lhe parecessem... 

O livro reúne contos escritos entre os anos de 1962 até 1995, dos 14 aos 46 anos do autor, entre suas paragens pela Argentina, Brasil e Europa... Funciona como uma autobiografia ficcional, são textos que o próprio Caio relegou à não publicação por vários anos, mas que um dia foram reunidos... Ele imaginou um título como Ervas Daninhas anteriormente, mas resolveu publicar como sendo suas Ovelhas Negras. Alguns sonhos foram registrados em papel, por isso não reparem na aparente estranheza que eles possam lhe causar durante a leitura dos mesmos...


"Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da suécia na beirada da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois."

Não pude deixar de grifar várias passagens ao longo do livro, algumas por identificação, outras por admirar a forma como Caio aborda os assuntos mais simples de maneira tão poética... ele aprofunda as palavras com ricos monólogos, quase sem pontos finais, dando margem para o leitor inebriar-se com os personagens e situações...
"te procuro em outro corpo, juro que um dia eu encontro.Não temos culpa, tentei. Tentamos."
O livro foi dividido em três partes: Ch'ien, K'an e Kên, palavras oriundas do idioma chinês. 3 epígrafes de O livro das mutações e cada conto dedicado a alguém que foi especial na vida de Caio. Como introdução aos contos, ele deixa uma breve nota explicando a origem da história, quando e onde [se for o caso] foi publicada, e o ano em que escreveu. Confesso que não gostei muito da capa escolhida pela L&PM Editores, por achar simples demais; Contudo, o livro é belíssimo, traz sentimentos conflituosos e melancólicos em cada uma de suas páginas...

"Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada. Daqui há pouco você vai crescer e achar tudo isso ridículo. Antes que tudo se perca, enquanto ainda posso dizer sim, por favor chegue mais perto..."
Não preciso dizer o quanto sou apaixonada por Caio e por sua obra, e ler Ovelhas Negras só aumentou a afeição que sinto por ele. Dou destaque especial para os contos Lixo e purpurina,  De várias cores, retalhos [um conto bem místico], Creme de alface [que possui uma pitada de suspense] e Anotações sobre um amor urbano... Carregados de misticismo, meio religiosos e por vezes obscenos, os contos nos transportam para as ruas em que as almas descritas se tocam, para os bares em que eles conversam, para as madrugadas frias em que eles se tocam... 

Em suma, para aqueles apaixonados pela escrita sensual/cadente/melancólica de Caio, aos que desconhecem sua obra e desejam um ponto de partida para leitura ou simplesmente para os que gostam de horas de deleite debruçados sobre bons contos, Ovelhas Negras é uma ótima pedida... Recomendo uma boa taça de vinho tinto e meia-luz para apreciá-lo...