31 maio 2015

O Mal que nos Habita - O Médico e o Monstro

Acabo de chegar ao fim de “O estranho caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde” – mais conhecido como o “O Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson (Selo Penguin – Companhia das Letras). Sucesso desde quando foi editado pela primeira vez em 1886, o livro é pequeno, de ritmo eletrizante, bem escrito, enfim: é de ler num fôlego.

E se para passar por seu número pequeno de páginas não é requerido esforço, tive alguma dúvida quanto a escolher inicia-lo. O que poderia ter de interessante num título tão conhecido, com tantas adaptações para teatro, cinema, televisão? Nesta resenha não corri o risco de ser “spoiler”. A história do médico bom que toma uma poção e torna-se mau é conhecida de todos! Faz quase parte do imaginário, desde o desenho do scooby-doo, até outras obras conhecidas, em que esta formula do “duplo” personagem se repete: “Silêncio dos Inocentes”,"Hulk", “Psicose”, etc.


Mas é aí que o clássico mostra a genialidade que o fez sobreviver mais de um século. Da safra de grandes escritores da literatura britânica, o autor escolhe um caminho interessante para entregar-nos a história. Não é um narrador onisciente, ou o próprio Dr. Jekyll (este escreve-nos apenas no último capítulo) quem conta “o estranho caso”. Ele é retratado sempre por personagens coadjuvantes, em incidentes aparentemente desconexos. O artifício aumenta as lacunas nas histórias, contadas por diferentes pontos de vista, o que aumenta o suspense. 

Você sabe o que está acontecendo, e ao mesmo tempo só consegue conectar os capítulos página à página. Não dá pra saber o que vem à frente, numa literatura que imita a atmosfera da Londres daquela época – enevoada e misteriosa – talvez um dos primeiros exemplos de metrópole que permite tanto uma sociedade rica e complexa, quanto anônima e entregue aos seus vícios.


O retrato do honrado Dr. Jekyll, e do malévolo Dr. Hyde vai se desenhando na tela mental, como num “download” lento. Aos poucos, vamos percebendo que não se trata de mera literatura fantástica ou gótica, de terror... não é obra para rotular. A ideia de que somos seres complexos e de que não somos “donos” das emoções que sentimos dói em nosso orgulho de autocontrole, mas nos é familiar e irrefutável. 

No íntimo, todos sentimos a tensão entre o velho primata que nos deu origem, e o indivíduo racional/religioso/moral que tentamos manter vivo e construir na sociedade moderna. É um equilíbrio tênue, e tropeços se acumulam por toda parte: dos casos extraconjugais às páginas policiais, nosso poder de destruir é tão forte quanto nossa arte e espiritualidade. 

Sentados pelos bares a tomar nossas “poções”, ou no intervalo entre a vigília e o sono, nossos sonhos e desejos afloram clamando por seu espaço. Se atendidos completamente, reivindicam avidamente por prioridade, levando com seu imediatismo animal os alicerces de nossas construções culturais mais elaboradas. Se fortemente inibidos, somatizam-se em dores e loucuras, provando que são parte inerente de nós, tanto quanto é inerente à humanidade o uso de substâncias para se perder de si mesmo. 

O "estranho caso" é uma leitura deliciosa, e nem é assim tão estranho ou infrequente. Aprecie sem moderação.

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