27 julho 2015

Literatura [de horror] em quadrinhos - Domínio Público

Ganhei de uma pessoa querida [Kalina] a HQ Domínio Público - literatura em quadrinhos, um compilado de contos de terror adaptados para quadrinhos por alguns desenhistas e organizadores. Na própria orelha da obra diz [e achei válido transcrever aqui] "Histórias curtas de seis grandes expoentes da literatura universal transformadas em quadrinhos que estimulam a imaginação através do rico apelo visual de suas obras."



Pois bem, nomes como Guy de MaupassantEsopoIsaac BabelBram Stocker e alguns menos conhecidos como Richard Middleton e Heinrich von Kleist tem nos traços de vários desenhistas alguns de seus contos menos conhecidos dos leitores. Não pense em ver Dracula nessa edição. O que você vai encontrar em Domínio Público é o conto A casa do Juiz. Provavelmente você pode achar que a obra de Stocker se resume apenas ao vampiro mítico, e seria injusto de minha parte desmerecer tal personagem cultuado no mundo literário de horror, mas devo fazer justiça em afirmar que o conto escrito por Stocker e adaptado na versão de Domínio Público é extremamente aterrador, e no traço de Gabriel Góes, a aura de inquietação que se instala no leitor no momento da apreciação da leitura não é de ficar atrás do 'carro-chefe' do grande Bram...

Resolvi falar um pouco sobre cada conto, pois não poderia falar da obra como um todo, sem me ater a cada história em particular. O primeiro conto adaptado é A casa do Juiz, escrito por Bram Stocker, adaptado por Mário Hélio e desenhado por Gabriel Góes. Um rapaz chamado M. decide viver num local longínquo, afastado de todo alvoroço da civilização. Na primeira noite em que chega a seu destino se instala numa hospedaria, e já no dia seguinte, parte em busca de uma residência que atenda seus interesses. Ao encontrá-la, retorna a hospedaria e fala para a senhora W. sobre sua escolha. A mulher fica apavorada mas não explica o porquê. Ele afirma que é cético e não se deixa levar por superstições ou algo do gênero. Mas já na primeira noite, ele nota que não vai ter a tranquilidade tão almejada em seu novo lar...



O segundo conto se chama A estrada de Brighton, do autor inglês Richard Middleton, adaptado também por Mário Hélio, mas dessa vez no traço de Samuel Casal. Um vagabundo surge debaixo de um monte de neve na estrada, parecia estar perdido e caído por horas naquela estrada inóspita. De repente, surge um rapaz lhe oferecendo companhia. O andarilho aceita. Ele conta que saiu de casa há seis anos e com o espanto do andarilho, ele afirma já ter morrido várias vezes nesse meio tempo... Diante da incredulidade do homem, o rapaz começa a lhe contar detalhes de sua nova condição, e como seria 'o outro lado' quando se passa a aceitar a própria morte...



O terceiro conto na verdade se divide em três mini-contos, pois se trata de adaptações de fábulas de Esopo. A primeira delas é a história do lobo e e garça, depois temos a dos dois inimigos e fechando o clico - o leão, o lobo e a raposa. Os desenhos foram feitos por Mascaro, e cada uma das fábulas traz uma lição de moral ao fim...



O horla possui um traço mais rebuscado, e tons terrosos e escuros. João Lin desenha o personagem que faz 'n perguntas para si mesmo, em que não há resposta para elas. Suas dúvidas e medos o levam a cometer a loucura de botar fogo na própria casa. Um navio que chegou do Brasil é o motivo para o personagem acreditar que um duplo o possuiu. A história é adaptada de um conto de Guy de Maupassant. O fim do personagem é trágico...

"Quando olho para a noite e vejo tantas estrelas e planetas desconhecidos, pergunto-me quem viverá ali? Que formas, que seres viventes, animais ou plantas, ali existirão? Que seres pensantes haverão nesses universos?"



O pecado de Jesus é desenhado por Fernando Lopes, e trata-se de um conto de Isaac Babel; a história é um misto do sagrado com o profano, onde uma simples criada engravida do marido e precisa cuidar das asas de um anjo, enquanto o marido a abandona e vai para a guerra. Sozinha, outros homens a cobiçam, sem pudor ou respeito. Ela não os ouve. Grávida e ébria, ela sucumbe aos pensamentos luxuriosos com o anjo a quem dá abrigo e comida...

Guazzelli ilustra o conto O terremoto no Chile, que fecha a edição. É uma adaptação da história escrita por Heinrick von Kleist. Mais uma vez o tema religioso se destaca, dessa vez contando sobre um amor proibido, fadado à morte.

São notáveis nos contos dessa HQ o pessimismo e [des]esperança humanos. A melancolia e solidão, bem como o desfecho trágico dos protagonistas. também emprestam seu papel à obra. Nos primeiros contos o leitor se sente aterrorizado, com uma espécie de medo do desconhecido. Com o passar de páginas, esse terror psicológico e claustrofóbico dá lugar à loucura e desalento, como nos contos O pecado de Jesus e O terremoto no Chile. Fatalismo é a peça-chave para a conjunção desses contos criados por mentes perturbadas, que tiveram - assim como seus personagens, fins trágicos e tristes.

Altamente recomendado para leitores que tenham fascínio por histórias mórbidas, ao estilo de Edgar Allan Poe e pessimistas, como Arthur Rimbaud e Franz Kafka. Os traços são um espetáculo à parte, que - combinados aos contos melancólicos, faz de Domínio Público - literatura em quadrinhos, uma ótima aquisição para se ter na estante...