19 agosto 2015

As aventuras de Huckleberry Finn...

Em As aventuras de Huckleberry Finn, clássico da ficção americana escrito por Mark Twain e publicado pela L&PM Editores, acompanhamos a trajetória de um menino - Huck - que resolve fugir numa balsa pelo rio Mississippi para escapar do pai, bêbado e violento, que vivia lhe espancando e queria o dinheiro de sua herança. No caminho ele se depara com Jim, um escravo fugitivo e juntos vivem experiências intensas, narradas de forma quase ingênua pelo menino. 



Logo nos capítulos iniciais conhecemos uma cidade pequena, às margens do rio Mississippi, cheia de personagens típicos de um país escravocrata, com suas gírias e vocabulário ribeirinho. Huckleberry é amigo de Tom Sawyer, personagem do livro que antecede este, e suas brincadeiras repletas de imaginação consistem em planejar assaltos e mortes na estrada, fazendo reféns que devem ser mortos ou soltos depois de terem o resgate pago. 

A índole de Huck é questionada pelo próprio todo o tempo, em que ele se põe em dilema com suas decisões e na maioria das vezes, ele se considera mal por tomar algumas delas... Ele simula seu assassinato e precisa sobreviver às intempéries de sua época. Rio abaixo, ele e Jim se deparam com dois vigaristas e passam por poucas e boas para se safar de serem pegos e descobertos...

"de que adianta aprender a fazer a coisa certa, quando é complicado fazer a coisa certa e não custa nada fazer a coisa errada, e o resultado é o mesmo? Fiquei emperrado. Não consegui responder. Então pensei que não ia mais me incomodar com isso, mas daí por diante fazer sempre o que me parecia mais conveniente na hora."

A narrativa é de fácil compreensão, apesar de várias expressões 'caipiras' ditas pelos personagens. O autor ressalta bastante o lado 'ignorante' de Jim e o menino age com ele como qualquer pessoa que vivia no período pré-guerra civil americana estava habituado a tratar um escravo negro. Contrapondo-se a isso, ele tem um amigo na figura de Jim, que arrisca a própria liberdade em vários momentos para proteger o protagonista...



Um dos pontos mais interessantes que achei na história foi de uma rixa de famílias, em que Huck presencia a morte de um menino de sua idade, simplesmente por causa de uma briga a qual os lados envolvidos nem lembravam mais do motivo e que se estendia por décadas. É nesse cenário de violência que Huck desenvolve sua perspicácia para se livrar de situações delicadas e arriscadas... É na vivência que ele adquire suas experiências para sobreviver num mundo incivilizado, mascarado de convenções e 'boas maneiras' da sociedade escravocrata sul-americana...

Mark Twain critica a hipocrisia da sociedade pelos olhos de um menino, que se transformou numa figura anti-heroica mítica da literatura do século XIX, que não está isenta de certa malícia, fugindo ao estereótipo de 'mocinho perfeito', mas que desdobra com honestidade e sutileza a crueldade e injustiça de seu tempo... O menino desajustado socialmente serve como chave para levantar questionamentos sobre a índole humana. 

As aventuras de Huckleberry Finn foi considerado por alguns como uma obra de cunho racista pelo termo nigger usado ao longo do livro. A editora New South quis publicar uma nova edição modificando o termo por 'slave'. Mas a meu ver, o livro trata - não de uma ode ou apologia ao racismo, e sim - de uma crítica social com relação a este. Modificar a escrita do autor em novas traduções seria destruir todo um contexto histórico de época e ambientação, em que não havia um significado pejorativo em utilizar o termo. 

"Bem, ele tinha razão, ele quase sempre tinha razão, tinha uma cabeça incomum, para um negro."
  
Esse livro foi minha estreia com a obra de Mark Twain. Já leram? Tem vontade? Já conhecem o autor? Até a próxima... ;D