20 agosto 2015

O planeta dos macacos, de Pierre Boulle

Trago para vocês as impressões que tive ao ler O planeta dos macacos, de Pierre Boulle. Pois bem, achei a leitura super fluída e interessante. Havia assistido as versões antigas dos filmes quando era pequena mas não lembrava muito bem da história. Enquanto lia, cenas do filme surgiram em pequenos flashbacks em minha mente... Aah... o poder das palavras em trazer memórias perdidas à tona...Bem, voltando à resenha...



Jinn e Phyllis estão de férias, viajando pelo espaço quando de repente encontram um objeto de vidro, e logo percebem que se trata de uma garrafa com um manuscrito dentro. Após resgatarem o objeto perdido na imensidão do universo e examinarem seu conteúdo, é que nós, leitores, passamos a conhecer o relato de Ulysse Mérou, um jornalista que - em companhia de um físico chamado Arthur Levain, um professor chamado Antelle e um chimpanzé, batizado como Hector, que viajaram numa nave cósmica em direção ao sol vermelho Betelgeuse, localizada na constelação de Órion. Esse local se encontrava a 300 anos-luz do planeta Terra e para chegar nele, passaram-se 350 anos terrestres, em que os tripulantes sentiram como se fosse uma viagem de apenas dois anos.

Quando aterrissam, acreditam estar num local habitado, pois encontram casas, florestas, lindas paisagens... Sua atmosfera é bastante similar a da Terra e logo eles encontram uma espécie de cachoeira... Logo percebem que estão sendo observados e se deparam com uma garota nua, que estranha os visitantes, mas tem sua curiosidade aguçada em examiná-los mais de perto. Após alguns contatos iniciais meio que desastrosos, algo terrível acontece e logo os intrusos se veem rodeados de homens que mais se assemelham a animais selvagens em seu comportamento...

"Durante a viagem, em nossas conversas a respeito de eventuais contatos com seres vivos, evocávamos criaturas disformes, monstruosas, com um aspecto físico bem diferente do nosso, mas sempre supúnhamos tacitamente nelas a presença do espírito. No planeta Soror, a realidade parecia completamente ao avesso: estávamos às voltas com habitantes semelhantes a nós do ponto de vista físico, mas que pareciam completamente destituídos de razão. Era de fato esta a significação do olhar que me perturbara em Nova e que encontrei em todos os outros: a falta de reflexão consciente, a ausência de alma..."

Levados para o 'ninho' desses estranhos humanos, acabam sendo perseguidos por inimigos armados que logo se revelam... macacos. Temos outra baixa no grupo de Ulysse e ele é levado como prisioneiro, a humana selvagem [Nova] que iniciou contato com eles é presa perto dele e assim passa-sem várias semanas, sendo examinado por pesquisadores macacos. Surge uma cientista que fica abismada com comportamento o homem, e ela começa a fazer mais estudos com ele, escondendo suas descobertas dos demais cientistas. Ulysse confia na chimpanzé, de nome Zira, e logo percebe que é ela quem pode tirá-lo daquela situação... Com a amizade que surgia, Zira ensina Ulysse o idioma símio, entrega livros para que ele aprenda o máximo que pode, sem avisar ninguém do laboratório, pois há macacos planejando um destino não muito atraente para o pobre Ulysse...

"eu acompanhara a alteração de sua fisionomia e registrara um certo número de detalhes surpreendentes: em primeiro lugar, a crueldade do caçador emboscando sua presa e o prazer febril que esse exercício lhe proporciona; mas, acima de tudo, o caráter humano de sua expressão. Era efetivamente este o motivo essencial do meu espanto: na íris daquele animais brilhava a centelha espiritual que eu em vão buscara nos homens de Soror."

O livro é dividido em três partes e narrado em primeira pessoa. Ulysse conta toda sua trajetória, desde a captura até quando descobrem que ele raciocina como um macaco, já que nesse planeta, os macacos detém o espírito e todo o conhecimento. Não se sabe o motivo dos humanos serem seres irracionais e os macacos - divididos em três classes [Chimpanzé, gorila e orangotango] -  serem a raça superior aos demais animais do planeta, e é isso o que Ulysse e o noivo de Zira pretendem descobrir. 


O livro tem apenas 206 páginas e pode ser lido sem problemas por leitores não tão bem ambientados em cenários de ficção científica pois não possui termos complicados na linguagem. A história tem um quê de distopia, pois se trata de um planeta onde os humanos são seres subjugados, e tomados como cobaias em experimentos científicos. O ser racional é descrito como inferior, e por vários momentos eu enxergava nos racionais o ser humano, quando na verdade se tratavam de macacos. Interessante e ao mesmo tempo desconfortável 'trocar de lugar' com os animais, pois em toda a narrativa, Ulysse tinha que provar que era um ser pensante e não apenas um animal condicionado. O autor fez um trabalho brilhante ao retratar a humanidade em estado primitivo e inferiorizada pelo seu parente mais próximo, o macaco...

Outro fator que achei interessante é que um dos personagens que é encontrado posteriormente está em estado de pura selvageria, já não reconhece seu amigo jornalista e age como se tivesse regredido ao estágio de animal irracional; mesmo com todas as tentativas de Ulysse de trazê-lo à sua verdadeira natureza, nada surte efeito... Em contrapartida, a humana selvagem que falei no início do texto vai se humanizando com o passar do tempo, por causa do contato [íntimo até] com Ulysse. 

"Eis a prova de que é possível perder o espírito, assim como adquiri-lo."

O desfecho parece caminhar para um final feliz, mas pega o leitor de desprevenido... Mas não vou falar sobre isso, prefiro manter o elemento surpresa da narrativa... Em suma, O planeta dos macacos é certamente uma obra admirável, que aponta várias questões éticas e sobre a evolução/civilização do Homem, bem como sua relação com os animais. É mais que estudar os seres irracionais, é colocar-se como um. E admito que a simples ideia beira o desconforto...

Até a próxima postagem...