08 agosto 2015

Projeto Roda de Leitura: Bate Papo com Maria Valéria

Para mudar o mundo, é necessário boa vontade e ação. E isso a Maria Valéria, nossa querida Val, tem mostrado que sabe bem. Com o projeto Roda de Leitura, Val tem feito a diferença na cidade de Paudalho (PE) ao estimular a leitura e o debate literário entre jovens. Confira o bate papo e saiba mais sobre essa ideia:

Dose Literária - Val, é difícil levar para frente um projeto de leitura no Brasil? Você enfrentou algum tipo de resistência?

Tem seu lado difícil, mas acho que força de vontade ajuda muito a não ficar pelo caminho.E saber que as pessoas que frequentam a roda vão se emocionar ao ler um livro que a gente debate no evento, ver a empolgação deles em falar sobre um livro que ganharam no sorteio faz o esforço valer a pena.

Dose Literária – Sua formação na área do magistério impulsionou a criação do projeto? Como?

Eu diria que sim. Em sala de aula, me deparo com situações que me deixam bem desesperançada da humanidade, acho que a leitura traz alento, desenvolve a criatividade e aguça o questionamento das coisas. É uma maneira de me sentir útil também, pois sei que não é algo ruim que estou estimulando nesses alunos, alivia minha sensação de inutilidade no mundo e acho que outros deveriam fazer o mesmo.

 Dose Literária -  Com o passar dos encontros, a procura aumentou? Quem é o público alvo?

Sim, confesso até que me espantei com a repercussão que a Roda anda tomando nos últimos meses. Até me assustei um pouco. (risos). O público alvo é algo bem relativo. Vão crianças na faixa etária de 7 ou 8 anos até pessoas na faixa dos 30 e poucos anos. Procuramos mesclar essas pessoas durante os debates.

Dose Literária - Você pode comentar um pouco sobre a relação da sua cidade (Paudalho) com a
literatura?

Bem, temos duas bibliotecas municipais, embora uma delas sirva apenas para projetos que não possuem lá muita relação com literatura, até eventos de moda vejo acontecendo por lá… A outra é mais adepta de projetos educacionais e afins. O problema talvez seja a falta de incentivo dos políticos de dar um empurrãozinho e patrocinar mais eventos e campanhas de leitura. Vejo alguns professores se juntarem pra tentar atrair as escolas em campanhas e eventos, mas por vezes os projetos ficam apenas no papel. Mais uma vez culpo os governantes com relação a isso.

Dose Literária - Como funciona a Roda de Leitura?

Basicamente, escolhemos um livro/autor/estilo literário a ser discutido na edição seguinte. Os frequentadores tem umas semanas pra ler e no dia discutimos o que gostamos ou não da obra em questão. Buscamos contextualizar o livro com a realidade a que estamos inseridos. Há alguns amigos meus que me ajudam também, não tomo conta de tudo sozinha. Somos uma equipe e cada um fica responsável por uma atividade que seja atrativa para a dinâmica do encontro, fazemos brincadeiras, sorteamos brindes, temos quiz, provas e afins. Estilo competição, sabe? Dividimos os presentes em equipes/duplas e premiamos os que se derem melhor nos jogos. Por vezes eles interpretam trechos dos livros, ou declamam algumas cenas, como partes das provas.


Dose Literária -  Fale um pouco de você, de suas influências pessoais na área de Literatura.

Graças aos meus pais, minha irmã e eu desde muito cedo tivemos contato com os livros. Eles não tiveram muitas oportunidades na vida e sempre tentavam compensar isso conosco. Começamos a ler com gibis que eles compravam quando éramos pequenas. Eu lia pra minha irmã, por ela ser a mais nova, fazia teatro imitando as vozes dos personagens dos quadrinhos. A medida em que fomos crescendo, nos foi apresentado um novo leque de leituras, de Monteiro Lobato aos contos de Grimm. Por ter sofrido muito bullying em minha infância, me refugiava nas bibliotecas na hora do recreio e encontrava verdadeiros amigos entre as páginas dos livros. Fui crescendo e lendo de tudo: de romances de banca a enciclopédias de história, gramática e geografia. De Turma da Mônica a HQ’s do Fantasma. Minha adolescência foi recheada de mangás, revistas com temáticas que me interessavam e livros de RPG. Via referências e buscava ler o que me aparecia. Com o passar dos anos, fui ‘direcionando’ meu gosto. Hoje dou preferência a livros de terror, clássicos, poesia, dramas, relatos de guerra, livros na minha área [História], livros que me encantam, que flertam comigo, seja nas livrarias, bancas de sebo ou da minha própria estante.

Dose Literária -  Como professora e coordenadora de um projeto de leitura, você acredita que o Brasil vai se tornar um país de leitores?

Pra ser sincera, eu até acredito. Mas até lá, será uma caminhada beem longo.