23 agosto 2015

Um artista da Fome, de Franz Kafka...

Franz Kafka nasceu na cidade de Praga em 1883, famoso por ter escrito A metamorfose, obra consagrada em que relata a transformação de um funcionário público em inseto, da noite para o dia... Confesso que fiquei incerta sobre qual obra apresentar a vocês e A metamorfose me tentou, mas acabei optando por um conto não menos famoso intitulado Um artista da fome [tão logo possa, volto aqui trazendo minhas impressões sobre A metamorfose, mas por ora vamos nos ater a Um artista...]



Trata-se da história de um jejuador, que ganhava a vida se expondo em feiras, dentro de uma jaula, para que várias pessoas o observassem enquanto passava semanas sem comer. Ele possuía um empresário e haviam algumas pessoas que ficavam de prontidão vigiando para que o artista não abandonasse seu posto e sabotasse o espetáculo, se alimentando de alguma forma... 

"apenas o jejuador poderia sabê-lo, já que ele era ao mesmo tempo um espectador de sua fome. [...] Porventura não era o jejum a causa de seu enfraquecimento tão atroz que muitos, com grande pena, tinham de se abster de freqüentar as exibições por não poder sofrer sua vista; talvez sua esquelética magreza proviesse de seu descontentamento consigo mesmo."

No começo, esse tipo de show atraía muitos expectadores. Vários deles se chocavam com o estado de magreza do jejuador, outros contestavam se ele realmente ficava sem comer e que o espetáculo poderia se tratar de charlatanismo, mas o jejuador realmente honrava sua profissão e nunca comia durante o tempo em que estava confinado na jaula. Com o passar do tempo, essa atividade vai se tornando quase uma obsessão para o artista, que via no ato de se alimentar após o período da apresentação, uma verdadeira tortura, até mais que o ato de jejuar. Ele já havia se habituado à fome, e ela era sua única companheira dentro daquela jaula...



Ao longo dos meses, em que em intervalos de quarenta dias ele era forçado a comer e partir para exibição em outro local, o espetáculo em si já não atraía tantos curiosos e logo o jejuador se vê sem empresário, que já havia percebido que não lucraria mais com esse tipo de entretenimento. Logo, o jejuador é acolhido num circo, sem contrato ou coisa similar, e é posto numa área próxima dos animais, onde as pessoas se apertavam para vê-lo, mas não com tanto entusiamo. Os dias vão passando, e nem a tabuleta onde se contavam os dias de jejum era atualizada. Aos poucos, os funcionários do circo e seus visitantes esqueceram que havia um homem ali...

O conto vai caminhando para seu desfecho, mas não poderia tirar o elemento de descoberta de vocês soltando spoiler... Mas o que posso falar dessa história - a metáfora que ela me pareceu - é a de como o ser humano passa a ser um elemento dispensável quando surge algo novo a ser mostrado. O artista não se reinventa e logo é escanteado e substituído. A sociedade é injusta e implacável com quem não tem muito a oferecer além de quinze minutos de fama, como diria Andy Warhol. O artista da fome não tinha muito a oferecer além de demonstrar sua resistência, sem sucumbir à inanição...Logo, não tendo mais serventia é ofuscado, cai no ostracismo. 



Franz Kafka pertencia a uma família de judeus. Tinha um relacionamento complicado com seu pai, e chegara a escrever uma longa carta para ele, que acabou sendo publicada junto com a edição que possuo, que contém A metamorfose, Um artista da fome e Carta ao pai, publicadas pela Editora Martin Claret. Formado em Direito, acabou indo trabalhar numa companhia de seguros. Escrevia em seu tempo livre, e foi considerado o precursor da narrativa de Realismo Fantástico. Teve vários envolvimentos amorosos, chegou a ter uma noiva mas nunca casou. Sua saúde era frágil, e decorrente dessa fragilidade, acabou falecendo um mês antes de completar 41 anos, de fome, devido a uma tuberculose laríngea diagnosticada uns anos antes. A condição de sua garganta não permitia que Kafka se alimentasse, o que provavelmente o levou ao estado de inanição. Foi justamente nessa época que ele escreveu Um artista da fome. 

Antes de morrer, pediu que seu melhor amigo queimasse o restante de suas publicações. Para nosso deleite, seu amigo não cumpriu a promessa e é graças a ele que temos acesso a obra existencialista, melancólica e surrealista de Kafka. Seus livros mais conhecidos além de A metamorfose são O processo, Um médico rural e O castelo, obra que não pôde ser finalizada...  

minha [modesta] coleção Kafkiana...

É possível encontrar nas histórias de Kafka elementos claustrofóbicos, metáforas, simbolismos em seus personagens e críticas à sociedade, à política e à própria condição humana. Sua escrita é fatalista, opressiva e beira a alienação. Nota-se também um reflexo do relacionamento conturbado que o autor tinha com o pai em seus escritos, em que a culpa que o filho sentia era aliviada com o sofrimento que o torturava. Kafka se considerava um estranho dentro de si mesmo...

"Preso entre quatro paredes de mim mesmo, descubro-me um emigrante preso em um país estrangeiro... "

Em suma, não poderia deixar de falar sobre esse autor maravilhoso e de sua obra magnífica. Por ser um de meus preferidos, já estava em tempo de aparecer algum texto falando sobre ele, e espero ter me retratado dessa infâmia com essa simples homenagem... Espero que tenham gostado... Me contem nos comentários se conhecem algum de seus livros ou se tem vontade de ler a obra do autor... Será importante para mim saber a opinião de vocês... Até a próxima... Beijos...