10 outubro 2015

A Zona de Interesse, de Martin Amis

"Quem é você? Você não sabe. Então você chega à Zona de Interesse e ela lhe diz quem você é", revela um dos personagens centrais do novo livro de Martin Amis. Em "A Zona de Interesse" (tradução de Donaldson Garschagen, editora Companhia das Letras, 2015, págs. 392), o escritor britânico retoma a ferida histórica cravada pelo Holocausto, uma das maiores destruições em massa já vivenciadas pela humanidade. O horror de Auschwitz é visto pelas vozes e pensamentos de três narradores: o cruel comandante nazista Paul Doll; o judeu Szmul, prisioneiro obrigado a desovar corpos, limpar locais de tortura e retirar objetos pessoais - como dentes de ouro e próteses - dos judeus mortos e o oficial de segunda linha Golo Thomsen, sobrinho de um dos figurões do Terceiro Reich  e obcecado por Hannah Doll, a rebelde mulher de Paul.

O tema já foi tratado por Martin Amis em "A Seta do Tempo" (1996), mas agora aponta o dardo para uma sátira sangrenta, onde paixão e horror se misturam à vísceras e silêncios forçados. "A Zona de Interesse" traz a voz do judeu Szmul, testemunha e protagonista de horrores indizíveis, soterrado na certeza de que seria morto assim que perdesse a utilidade. Com um depoimento tocante -  entre eles o caso dos meninos calados -, Szmul sobrevive à própria vida. Em seus pensamentos, notamos as angústias petrificadas por uma dor sem nome. A narrativa do Sonder Szmul, membro do Sonderkommando, grupo de indivíduos designados à tarefas nauseantes de assassinato e descarte da própria raça, traz à tona o que viveram milhares de homens e mulheres que, sobreviventes do campo de extermínio nazista, conseguiram partilhar com o mundo suas histórias.

O livro fala também do bêbado comandante Paul Doll, ferrenho defensor das políticas nazistas e alguém para quem o certo e o errado deixaram de existir, dando lugar à sede pela violência. Casado com uma mulher que não consegue dominar, Doll amarga a existência de fantasmas do passado e do presente; este último personificado pela figura de Thomsen. Durante o seguimento do livro, observamos este último personagem ter choques de consciência cada vez mais frequentes, seja pelas experiências vividas ou pelos sentimentos despertados pelo amor que sente por Hannah. Por ser um narrador sem "rosto definido", Golo Thomsen foi taxado por alguns críticos como uma figura "inconvincente". Cabe lembrar que, no ano passado, a obra foi rejeitada pelas editoras tradicionais dos livros de Amis na Alemanha e na França, sendo publicada nos respectivos países por outros selos.

O escritor Martin Amis. Créditos: divulgação

Realismo amargo, pincelado com críticas mordazes espalhadas pelo enredo fazem do livro uma memória ficcional autêntica. Como o autor anuncia nos agradecimentos e posfácio, foram anos de pesquisa e leitura para tentar traçar uma rota em areia movediça. "A Zona de Interesse" descortina a inversão de valores que acontece na guerra, um revelador ideológico da natureza bestial humana. Como importante lição dessa fábula moderna, o argumento de Golo no desfecho da trama sinaliza uma das morais da história:

"Ah, o sofrimento é relativo, sim. Você perdeu o cabelo e metade do seu peso? Você ri em enterros por causa de todo o estardalhaço que fazem porque só uma pessoa morreu? Por acaso sua vida dependia do estado do seu sapato? Seus pais foram assassinados? Ou suas filhas? Você temia uniforme, multidões, chamas e cheiro do lixo molhado? Sentia um pânico de dormir? Aquilo machuca, machuca e machuca? Há uma tatuagem em sua alma"?