05 novembro 2015

Os sonhos de Jurema e outras historietas sem tempo, de Mara Vanessa

Recebi como cortesia da minha querida Mara Vanessa sua publicação recente intitulada Os sonhos de Jurema e outras historietas sem tempo, e garanto que o único defeito do livro é que ele poderia ter mais contos, pois a escrita de Mara é deliciosa, e ao mesmo tempo que massageia, nos dá aquela breve sensação de desconforto seguido de soluço... O livro foi publicado de maneira artesanal, como a autora intitulou o formato, publicado pela Infinitum Editora... a diagramação é singular. E para adquirir seu exemplar, é só entrar em contato com a autora por e-mail: maravanessa@gmail.com



Com uma maestria impressionante, ela baila com as palavras, nos brindando com contos breves, bem ao estilo do 'vampiro de Curitiba' - Dalton Trevisan - expondo cenários do cotidiano de pessoas comuns, mas que fazem o leitor se identificar em alguma[s] delas...

Os contos falam sobre um novo amor, sobre as labutas diárias de uma vida sem esperança, sobre nunca se abater perante as dificuldades, e - acreditem - fugindo do clichê de parecer autoajuda. As historietas são realistas, metafóricas, falam de urbanidade - eis alguns dos elementos que o livro carrega consigo. O amor se encontra nas entrelinhas...

"Eu como minhas unhas, detono meu pulmão, ferro com meu corpo. Sou fedorento como um gambá e o libertário dos libertinos. Mas ainda não sei como olhar para os seus olhos com todas essas cores de azul e verde. Ainda não sei..."

Em certos momentos, é quase palpável a crueza visceral com que a autora ambienta seus personagens. 

"Lavando os pés na água barrenta, corpo molhado pela chuva e bucho morrendo de fome, resolve perguntar à mãe onde ela conheceu o pai. Olhando o esgoto no meio da rua, ela responde:
- Aí mesmo, ó."

O livro também fala sobre as superficialidades das relações modernas, numa era em que os celulares se tornam mais que aparatos e parecem ser elementos essenciais para sobreviver nesse mundo de aparências... No conto Insone, a tragédia da vida recai sobre os lugares que ninguém espera. Em Revista sagrada, o cansaço do dia-a-dia se reflete na mesmice dos relacionamentos, já exauridos; Em Ata, corre a hipocrisia santa e a ingenuidade cega... 

Em Refluxos, as lembranças de alguém que partiu são o foco da historieta...

"A cozinha ainda estava lá, com aquele aspecto gordurento que se confundia com os cabelos dela. Olhou para o ralo da pia fixamente. Ainda hoje continua olhando. Quem sabe a encontre lá, presa entre os restos de comida entupidos."

Os sonhos de Jurema e outras historietas sem tempo é para aqueles que sabem encontrar poesia em todo lugar... Seja numa repartição pública, num ponto de ônibus após o cursinho ou entre pombos se alimentando da pipoca de alguém num banco de praça... É sobre[vivências], dores, humanos...