21 fevereiro 2016

Baratas de Hiroshima, de J.P. Oliveira

*João Paulo (Jotapê) Oliveira gentilmente nos enviou seu livro BARATAS DE HIROSHIMA, para que pudéssemos lê-lo e compartilhar nossas impressões. Quer fazer o mesmo? Escreva através de nosso formulário de contato.

Autores e Suas Vaidades


Quais os motivos para se tentar publicar um livro? Na literatura técnica, a resposta é óbvia: novas pesquisas e conhecimentos devem ser divulgados, para que possam ser replicados, questionados, ampliados. Para a ficção, a cada novo título temos a chance de um novo ângulo sobre a experiência humana. O autor (acredito eu por vaidade, e pela busca da empatia daqueles que pensam como ele) mostra suas experiências e reflexões, através de um código de personagens e aventuras mais ou menos elaborado.

À medida em que o tempo passa, mantemo-nos cultuando best-sellers, pois sintetizam um olhar bastante disseminado sobre a vida. A vaidade do autor morre com ele, mas não o sentimento de identificação de seus fãs com aquele ponto de vista específico, nem o interesse das editoras em faturar em cima deste sentimento de pertencer, é claro. 

Vez por outra, alguém tenta lançar uma ideia nova, mas nunca é integralmente inédita. Sobre isto, gostei da explicação de um analista de investimentos que li recentemente. Ele admite sua falta de originalidade e se traduz como um liquidificador, que mistura o que chega até ele.

O Ser Humano em sua dimensão radioativa

Baratas de Hiroshima tenta ser novo, transgressor. Apesar da descrição da capa, que indicava que acompanharíamos um policial viciado em seu contato com “um panorama da escória e da natureza humana”, lemos sobre o policial em alguns momentos, mas também outros personagens, em textos curtos, não necessariamente relacionados.

Jotapê mostra que sabe escrever, especialmente em “Balada de ninguém”, dando ritmo e qualidade a seu texto, que passa voando, com doses bacanas de intensidade e humor mordaz. A maior parte do livro, porém, é de experimentos mais ousados, em que acho que o autor erra a mão em favor de sua vaidade. O resultado é que alguns contos exageram no experimentalismo ou na tentativa de chocar e ficam caricatos, quase sempre mergulhando em experiência sensoriais de drogas e sexo. Não chega a nos envolver – quer mais nos enojar, com descrições de coprofagia e outras escatologias traduzidas em pontuação e estrutura fora do padrão:
“...levanta a saia rasgada de trapos pro motorista da Kombi desastres escombros de morros desabados em chuva de trovões lava, e a fúria difina sob pobres & famintos quanto? quanto? quanto? 15 centavos sobe a calcinha coçando piolhos de dedos entrelaçados ácido úrico descendo de calcanhares 15 só quinze centavos sinhô sinh, viadutos de mijo vapores...” ...e assim segue em sua “Cantiga Urbana”.
Tem ainda outros trechos explícitos, com orgias familiares envolvendo pets, avós e filhos, braços introduzidos, vômitos reingeridos, etc. Quer ser diferente, ou mostrar seu mergulho corajoso no núcleo do reator do ser humano – mas que diferença esta “ousadia” tem de tantas outras aventuras adolescentes? O próprio autor parece se dar conta vez por outra de quão vão é seu esforço:
“O cinismo ocasionado por vidas inteiras de injustiças e impunidades causara um sentimento geral de niilismo inevitável em toda raça de seres que nos compõe. Sabemos ser impossível a luta contra o que á de ser feito, sabemos os pontos em que podemos chegar para conseguir o que queremos, sabemos não prestarmos para nada senão saber que, haja o que houver, seremos sempre puramente imperfeitos”.
Ou ainda:
“...//ordem e progresso em faces de desolação drenadas de inúteis sentimentos pensamentos sonhos esperanças ideias ideais memórias luzes pulsos notícias alegrias tristezas dores começos meios, fins arrebatadores de inconsequências um amanhã o mesmo que hoje ontem agora e para todo o sempre//”