12 março 2016

A Construção de José de Alencar

Quando você compra um Kindle, a primeira sensação é a de ter gasto uma grana em “literatura”, mas não ter livro algum pra ler. A mídia obrigatoriamente precisa ser preenchida, algo que fazemos aos poucos, conforme nos interessamos pelos títulos disponíveis e os compramos.

Uma grande jogada para aumentar a disponibilidade inicial de títulos é procurar pelos livros gratuitos. Não tem muitas opções nesta lista, mas uma que logo me chamou a atenção foi “COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA” – de José de Alencar. Nós, aspirantes a romancistas, obscurecidos pela sombra pesada do fantástico José de Alencar, de Iracema e Senhora, somos atraídos a esta leitura, como se pudéssemos dela tentar beber algum segredo, ou encontrar um atalho para o talento literário.


O que faz um escritor de sucesso? Como estava citado em outro gratuito “101 DICAS para um escritor iniciante”:
“Existem três regras para escrever um romance. Infelizmente, ninguém sabe quais são.” W. Somerset Maugham
Ok. A busca de uma formula mágica é vã – isto eu já sabia. Provavelmente é algo mais complicado que isto. Tem algo a ver com buscar a empatia com sentimentos humanos bastante profundos, se possível compartilhados por diferentes culturas. Mas como tornar-se capaz de traduzir este imaginário coletivo? Como ganhar os leitores?

O livro de José de Alencar não responde, mas tem vários atrativos. Em primeiro lugar, a oportunidade de conhecer nosso idioma tal como era utilizado no Séc.XIX:
“Seria esse o livro dos meus livros. Si n´alguma hora de pachorra, me dispuzesse á refazer a cançada jornada dos quarenta e quatro annos, já completos; os curiosos de anedoctas literárias saberiam, além de muitas outras cousas mínimas, como a inspiração do Guarany, por mim escripto aos 27 annos, cahio na imaginação da criança de nove, ao atravessar as matas e sertões do norte em jornada do Ceará á Bahia.”
Também da época, o zelo na formação infantil, sem as licenças dadas hoje – tratados como pequenos adultos em franca competição:
“Então o excessivo rigor que se me tinha afigurado injusto, tomava o seu real aspecto; e me apparecia como o golpe rude, mas necessario que dá tempera ao aço.”
José de Alencar conta o ritual de vários dias de sua infância, em que a família se reunia para leitura em voz alta dos poucos títulos disponíveis – por vezes de forma repetida, numa época de mercado ainda mais restrito, e de edições relativamente mais caras. A despeito das dificuldades, acumular leituras e ter citações à proposito nas conversas parecia ser de grande distinção - uma habilidade a ser cultivada.

Também mostra que o interesse em ler as novidades que vinham da europa provocavam a necessidade de aprender novos idiomas. Alencar nos relata a luta em aprender o Francês, para que pudesse ler Victor Hugo e outros. Também sua passagem pelos clássicos romanos – uma formação muito mais pesada em ciências humanas.

E para escrever? Cadernos, pena e tinteiro, meus caros. Nada de editores de texto e Google à disposição. Não dá ainda mais admiração pelo que ele conseguiu produzir?