04 março 2016

Amigas para sempre, de Kristin Hannah

Em março de 2014, eu tive a oportunidade de ler e comentar "Por toda a eternidade", continuação de "Amigas para sempre" (original Firefly Lane, tradução de Cássia Zanon, editora Arqueiro, 2014, págs. 448), obras da escritora americana Kristin Hannah. Na época, o segundo livro me provocou forte emoção e apego, seja pelo momento pessoal ou literário. Fiquei com vontade de ler "Amigas para sempre" e ligar os pontos de forma mais clara, entendendo como tudo começou - ah, essa nossa vontade de perseguir começo, meio e fim de tudo! 

Carregando nos ombros a característica dos romances de Kristin Hannah - conflitos humanos, crises, sentimentos em jogo e recuperação pessoal e espiritual -, a primeira obra conta a história das amigas Tully Hart e Kate Mularkey, desde o momento em que se conhecem na escola até à chegada da fase adulta. Tully vem de uma família disfuncional; amargando um histórico de abandono, ela aprende a ser determinada e focada, indo além da beleza física - um de seus maiores atributos. Depois de passar por uma experiência traumática, Tully encontra amizade e conforto em Kate e sua família.  Kate é tímida, religiosa, sem ambições megalomaníacas. Oposto de Tully, ela sonha em encontrar um homem a quem ame e com quem possa formar uma família. 

O tempo passa, as adolescentes vão para a faculdade de Jornalismo - Kate influenciada por Tully - e, depois de formadas, a vida acaba construindo caminhos diferentes para as duas. Tully alcança sucesso na carreira e Kate abandona tudo para buscar outro sonho. A mudança crucial acontece quando o jovem e charmoso produtor Johnny aparece na vida das amigas, balançando o corpo de Tully e o coração de Kate. 

Com as escolhas do presente, seguem as mudanças do futuro. Quanto tempo uma amizade é capaz de resistir? O que pode ser capaz de destruí-la? Esse é um dos pontos do texto de Kristin Hannah, além de outras questões humanamente interessantes, como fidelidade, o duelo vida pessoal versus sucesso profissional, família, filhos e escolhas. Não causa espanto que "Amigas para sempre" seja um dos livros mais vendidos na lista do The New York Times: com seu enredo novelesco, faz o leitor sentir proximidade com a história sem precisar mergulhar em temas profundos de forma desconfortável. No entanto, esse traço pode ser uma faca de duas pontas: assim como mantém relação com a narrativa fácil, peca por tratar de forma superficial temas e situações que ganhariam muito se tomassem outra forma. Um exemplo disso é a transformação da amizade de Tully e Kate e a diferença entre seus caminhos e modos de vida. Nada se resolve em um passe de mágica; pelo menos, no mundo real. Essa busca pelo mergulho fora dos clichês, aprofundando temas que podem ganhar dimensões maiores do que romances de listas do New York Times, falta em  Kristin Hannah. Mas não tira a beleza, sensibilidade e a tentativa de mostrar o que se fere e se cura através do amor.