07 março 2016

As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley

Este post é para compartilhar as minhas impressões durante a leitura dos volumes do famoso "AS BRUMAS DE AVALON". Chamo este tipo de livro de "literatura de imersão": você se transporta para outro mundo, com outros valores. Sente quase o cheiro das passagens - algumas delas bastante sensuais. Também senti tal imersão quando li as obras de Tolkien (a opressão sentida pelos Hobbits frente ao mundo desconhecido), ou de Arthur Conan Doyle (o fog londrino, chuva fina, frio e cachimbos soltando baforadas de conversa inteligente).




Livro 1
Pela fama do livro, esperava algo mais profundo, que tocasse a gente. Mas espremendo o suco, resta desta primeira parte uma boa diversão, a vontade de continuar para o segundo livro (de um total de 4) e um tema bem interessante:

O livro cita antigas religiões em que a mãe ou a Deusa, enfim, o feminino eram mais importantes do que o masculino. Já escrevi em meu blog que as mulheres são sim mais aptas ao governo, vida em sociedade, enfim, são mais civilizadas e deveriam conduzir os rumos. Infelizmente, algumas preferem deixar esta posição central de lado, e se escondem covardemente na posição ora manipuladora, ora crítica dos homens.

Trechos selecionados:

"os romanos estabeleciam a linhagem pelo ramo masculino, e não pelo feminino, o que seria mais sensato. Era tolice, pois como poderia um homem ter absoluta certeza de quem era o pai de qualquer criança? É claro que eles se preocupavam muito com quem se deitavam as mulheres, e fechavam-nas e espionavam-nas."
"... a lua invisível fora da caverna inundava seu corpo de luz, como se a Deusa surgisse dentro dela, alma e corpo. Estendeu os braços e à sua ordem sabia que la fora da caverna, à luz dos fogos fecundantes, homem e mulher, atraídos um para o outro pelos impulsos pulsantes da vida, se juntavam. A menina pintada de azul que levara o sangue fertilizante foi atraída para os braços de um velho e musculoso caçador, e Morgana viu sua rápida luta, seu grito, enquanto ela desaparecia sob o corpo do homem, com as pernas abrindo-se pela força irresistível da natureza."

Livro 2
Li avidamente esta parte, querendo saber o que vai acontecer. Acho que vou assim na terceira parte também.
A autora sofre para defender sua tese. Tem o desejo de pregar o direito de crença, mas seus personagens ficam o tempo todo atacando os modos de culto do Deus masculino. Defende o culto à Deusa, mais maternal, entregue à natureza. Estabelece nesta contradição duas medidas: o vegetarianismo das sacerdotisas e druidas é algo inteligente e evita a intoxicação, enquanto o voto de castidade dos padres transforma-os em "eunucos de saias". O voto de silêncio consagra a servidora da Deusa, enquanto o recolhimento em conventos distancia as freiras da natureza... e por ai vai.

Tive um pensamento um tanto desanimador: em nossa maior "maturidade na democracia", somos capazes de aceitar que outros pensem diferente, e deixá-los assim. Mas se não concordamos, achamos em nosso íntimo que são inferiores em sua capacidade de análise, e que nossas idéias são mais corretas. Isso é realmente respeitar a posição do outro?

Trechos selecionados:

"...e lembrou-se do que Lancelote lhe dissera, em seu desespero, de que não havia deuses nem deusas, que eles eram apenas formas que a humanidade dava, aterrorizava, àquilo que não podia compreender racionalmente."
 "A diferença é maior do que eu pensava. Até mesmo aqueles que trabalham a terra, quando são cristãos, adotam um modo de vida que está muito distanciado desta terra,; dizem que seu Deus lhes deu o domínio sobre todas as coisas que crescem e sobre todos os animais dos campos. Ao passo que nós, moradores dos montes e pântanos, florestas e campos distantes, sabemos que não é nosso o domínio da natureza, mas sim ela que nos domina, desde o momento em que a luxúria se agita nas virilhas de nossos pais e o desejo no ventre de nossas mães para nos gerarem,..."
 "E anos mais tarde, ao procurar lembrar-se do que lhe acontecera no Castelo de Chariot, recordava-se de que se deitara no colo da mulher e nela mamara como uma criança, sem que lhe parecesse estranho estar ela, Morgana, uma mulher feita, deitada no colo da mãe, sendo acariciada e acalentada como um bebê. "

Livro 3
Li este livro achando que era o último volume, mas ainda faltava um. Ainda bem, pois este terceiro volume se arrastou um pouco, e deixou todos os nós da história abertos.

Diante de interpretações (por vezes delírios) pessoais, ações são tomadas por vários dos personagens. Posteriormente, esses mesmos personagens racionalizam uma justificativa para cada atitude, e sempre uma análise de que fizeram o que tinha que ser feito - para um bem maior. 

É engraçado, mas é assim que fazemos mesmo! Em minha atividade profissional, as pessoas contam como são suas carreiras. Anos após, decisões desastradas transformam-se em seus relatos, tornando-se estratégias intrincadas, que os levaram até onde estão hoje. Chama-se ressignificar o passado.

Marion Z Bradley ressignifica o passado ao contar a história mítica do Rei Artur pelos olhos das sacerdotisas de Avalon.

Livro 4
Depois de 4 livros (eu comecei achando que eram 3), terminei a leitura de "As brumas...". Morgana, após suas idas e vindas, mudanças de opinião, ódio e equilíbrio, realidade e sonho, santidade e devassidão.

Achei que tudo vinha coerente, as vezes doloroso - pois a autora não mimou seus personagens durante a história, como faria um progenitor de novelas mais toscas. Ainda assim, foi preciso muita catarse, brumas, magias e encantamentos para alinhavar o final da saga.

Não vou aqui ficar discordando dos destinos da história. Apenas agradecer à autora pelas horas divertidas. Não vai para minha lista de favoritos, mas no momento há aquela sensação de luto, pois por alguns meses compartilhei as histórias sobre Artur, Lancelote, Morgana e as barcas negras de Avalon.

Frases selecionadas:

"Nenhum Homem pode combater as marés ou as crenças. Talvez, se tivéssemos evitado converter os saxões, isso tivesse sido feito por aqueles mesmos padres que construíram a capela, onde eles e Taliesin podiam trabalhar lado a lado. Nossa própria intolerância impediu-nos disso, o trabalho foi entregue a fanáticos como Patrício, que em seus êxtases vêem o Criador apenas como o Pai vingador de seus soldados, e não a Mãe adorada, protetora dos campos e da terra..."

"De outra forma, eu não poderia suportar isto, fazer o que estou fazendo... mas um homem tão indefeso diante do desejo é desprezível... eu também tremo, estou dilacerada... mas não ficarei à mercê da fome de meu corpo.."

"Todos aqueles que se fingem religiosos, pensou Morgause, só querem manter as fontes do poder em suas próprias mãos. Mas agora eu as tenho livremente, e por minhas próprias mãos, sem me limitar por juramentos sobre seus usos ou destino".

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