24 junho 2016

Almoço Nu - William Burroughs


Tenho família, quero ter futuro, quero que o mundo tenha futuro – então, esta literatura pode ter chegado tarde para mim. Já não posso curti-la sem amarras. Almoço Nu, de William Burroughs, é a Humanidade Nua em seus desejos mais inconfessos. Mais uma experiência promovida pela parceria com a Companha das Letras.

Burroughs, morto em 1997, ganhou notoriedade por fazer parte do movimento Beat, juntamente com Ginsberg e Kerouac, com quem supostamente passou tempo e viajou pelos USA. É importante frisar: “supostamente”, porque toda uma mística foi criada sobre os autores. Em apêndices de Almoço Nu, Burroughs afirma: "Quando afirmei não ter lembrança alguma de ter escrito Almoço nu, é claro que estava exagerando...". Kerouac confessou que a droga usada para o motivar por “On the Road” não foi Benzedrina, mas prosaicas doses de café.

Aliás, como chapados escrevem um romance? Não escrevem. O conjunto de textos de "Almoço Nu" é uma montagem feita pelo autor, com auxilio de Ginsberg (por quem Burroughs tinha uma queda) e com a intervenção de vários editores. Desde 1959, as edições são diferentes.

"Almoço Nu é uma cópia heliográfica, um pré-livro...insetos negros anseiam por vastos cenários de outros planetas...Conceitos abstratos, simples como álgebra, reduzem-se a um monte de bosta ou a um par de cojones velhos..." (...) "Almoço Nu exige silêncio de seu leitor, caso contrário, acaba tomando seu próprio pulso..."(pag.249) 

O livro é uma experiência bem mais intensa que “On The Road”, de Kerouac. Compartilhavam o experimentalismo e o uso de drogas, em um país que vivia sua “Golden Age” desde os anos 50, renascendo após a segunda guerra. O sonho do americano médio, o emprego, a casa, a família, não faziam sentido para estes jovens. Era a realidade de seus pais – tudo o que queriam questionar. Pra que cuidar e semear para o futuro? A realidade é apenas o presente, como na cena inicial de Trainspotting (recomendo muito!).


O uso de drogas e da vida sensorial em sua intensidade máxima, sem medir consequências, é vivê-la completamente no presente. Não se pensa nos riscos. DEVE HAVER riscos, simbolizando a entrega completa e desvinculação com qualquer compromisso de civilidade. Como a expectativa dos monges budistas ao meditar, livrar-se de qualquer identidade, diluir-se nas experiências cotidianas sem nenhuma presença ou julgamento, mas fazê-lo sem percorrer o caminho longo da vida monástica. É o caminho oposto à disciplina. Interessante ver que os dois extremos podem se tocar nos resultados.
“Buda? Um notório Junky metabólico... Produzia sozinho tudo de que precisava, se é que você me entende. (...) Então Buda aparece dizendo: ´Não preciso aguentar esse negócio, juro por Deus que eu mesmo vou metabolizar minha junk´.”
A literatura de William Burroughs é puro TEMPO PRESENTE. Ou melhor, é ausência de passado e futuro. Educado em boas escolas e de família com recursos, utiliza um recurso intelectual mais lapidado para renegar completamente suas origens (passado) e falar das experiências presentes. Acho que para ele é ainda mais difícil que para Kerouac e Ginsberg, pois estes estão mais jovens e desprendem-se de menos passado, menos convenções, em sua literatura experimental. 

As consequências que se apresentem, tanto faz. Personagens morrem, são abusados sexualmente, explodem em orgasmos e experiências, enlouquecem, E DAÍ? Viveram o presente, não controlam seu viver, ou melhor, não querem controlar nada.  O ideal da mente puramente adolescente. Não amadurecem, não porque não são capazes, mas de modo voluntário: porque não querem.

Kerouac, Ginsberg e Burroughs
O controle é o inimigo  a ser destruído em ALMOÇO NU. Linguagem chula, Junkys em aventuras sexuais (principalmente homossexuais, pois era a orientação de Burroughs), parágrafos sem sentido, não estão lá como mera escatologia, nem porque o autor quisesse chocar a américa conservadora. 

Consegue desprender-se das experiências literárias anteriores, e sua notoriedade deriva do sucesso nessa empreitada. Quer que a leitura seja como a droga. Pegue o livro de qualquer página, a experiência será igualmente inebriante. Muitas páginas, por que tantas? Intuo que a entrega seja parte da experiência. É preciso imersão, tem que durar algum tempo. É preciso se intoxicar, desistir de nosso senso organizador, livrar-se da mente civilizada. 
“É isso mesmo que está escrito?...Tento me concentrar nas palavras...elas se desmembram em um mosaico sem sentido...” (Pag. 82).