11 junho 2016

Cinco Contos, de Katherine Mansfield

Maria Valéria, amiga querida e autora do Dose Literária, encheu meu aniversário de boas surpresas ao enviar "Cinco Contos", livreto organizado com algumas histórias da neozelandesa Katherine Mansfield

Eu já tinha ouvido falar de Katherine (a única escritora que Virginia Woolf declarou "invejar") e fiquei com uma espécie de "desejo ardente" pulsando ao saber que ela trabalhava de forma fantástica a trivialidade transcendente do cotidiano, expressa em histórias curtas e cobertas pelo véu da sutileza. Em uma rápida pesquisa, descobri que Katherine Mansfield nasceu em 1888, era violoncelista e viveu um vai-e-vem entre Inglaterra e Nova Zelândia. Seu interesse pela literatura foi ganhando alma aos poucos, reforçado pelas amizades no meio literário e pela própria vivência. As coisas não foram fáceis para a jovem escritora: divorciada, enviada à Alemanha para ter um filho considerado "ilegítimo" (nascido fora do casamento), sofreu a perda do bebê, contraiu gonorreia e enfrentou a opressão social e familiar. Depois de anos de resistência, a escritora levou outros golpes dolorosos: a morte do irmão, seguida de uma depressão profunda e o padecimento por tuberculose.

Para além dos infortúnios, Mansfield deixa uma escrita afiadíssima. Em "Cinco Contos" (editora Paz e Terra, 1996, págs. 96), estancamos com a dramática vida de "Senhorita Brill", uma mulher de hábitos repetitivos, supostamente feliz com a rotina, mas que se abala ao ser vítima de sua própria prática. Há também o final surpreendente de uma narrativa sem ação em "Tomada de Hábito" e a belíssima emoção de "A vida de Mãe Parker"; este último, um conto sobre abnegação, dores silenciosas e esquecimento (um dos meus preferidos). A visão puramente amorosa dos relacionamentos é questionada em "A fuga" e no genial "Je ne parle pas français" (Eu não falo francês), desmembrando os mitos em torno do amor e suas promessas feitas de açúcar. 

Não é à toa que a sutileza de Katherine Mansfield tenha provocado reações de admiração e inspiração em escritoras importantes (como a já citada Woolf e Clarice Lispector). Seu traço cheio de detalhes observadores desnuda a introspecção, contando as narrativas das sombras, ou seja, "as histórias por trás das histórias".