18 junho 2016

Mr. Mercedes, de Stephen King

Capa de Mr. Mercedes
Desarmar uma bomba. É isso o que Stephen King, um nome autossustentável, faz em Mr. Mercedes (tradução de Regiane Winarski, Suma de Letras, 2016, págs. 398), livro I da trilogia Bill Hodges. O thriller reforça as características inconfundíveis de King: narrativa detalhada, coberta pelo cheiro do medo e gosto de sangue, atmosfera sinistra e a maldade que existe no cotidiano. Nesse livro, não encontramos entidades monstruosas vindas do imaginário coletivo ou de outro planeta; pelo contrário: o perigo existe, tem nome, rosto, registro de identidade, comprovante de residência e carteira de trabalho.

A história começa com o massacre de pessoas inocentes que estavam madrugando em uma fila de empregos. Fazia frio, as condições eram inóspitas mas essa era a única chance de dezenas de desempregados sobreviventes de uma economia moribunda. No meio da névoa, um Mercedes avança pela multidão esmagando, arrancando, esquartejando. Entre os mortos, uma mulher com sua filha bebê. 

O caso não foi concluído pela polícia a tempo do detetive Bill Hodges ver o criminoso atrás das grades. Hodges é um homem na casa dos sessenta, com a mente aguçada e a barriga grande. Depois de aposentado, o ex-policial assume a personalidade destrutiva de muitos brilhantes investigadores de romances de suspense. Divorciado e sozinho, o detetive aposentado nutre fortes pensamentos suicidas cotidianos, luta contra o alcoolismo e sente saudades de quando estava em atividade. Nessa linha, o autor norueguês Jo Nesbo tem seu Harry Hole e, guardadas as devidas proporções comparativas, Sir Arthur Conan Doyle tinha seu Sherlock Holmes. O ponto de encontro desses três sujeitos mistura astúcia, ações arriscadas, inteligência instintiva e vícios. 

Enquanto delibera sobre seu possível suicídio, Hodges recebe uma carta anônima de um sujeito que se declara responsável pelo Massacre do City Center. Na correspondência, pistas e detalhes são esfregados na cara de Hodges que, silenciosamente, decide retomar as investigações. Na época, os assassinatos recaíram sobre os frágeis ombros de Olivia Trelawney, uma senhora ricaça que não soube explicar como o seu sedã cinza foi parar nas mãos do assassino e, fragilizada pela pressão popular e por seus problemas psicológicos pré-existentes, comete suicídio. O detetive Bill Hodges acha que a investigação não foi tratada de maneira adequada e retorna para suas anotações antes de realizar novas entrevistas. Em uma dessas, ele conhece a irmã de Olivia Trelawney, herdeira da fortuna, e as coisas ficam mais complicadas. Para piorar, o assassino procura Hodges através de um bate papo na 'deep web'. O velho e obsoleto policial conta com a ajuda de Jerome, um rapaz da vizinhança que lhe presta pequenos serviços e acaba se tornando amigo. 

A primeira parte da narrativa segue lenta e explicativa; conhecemos a rotina do policial, quais são seus planos investigativos e quem é o assassino. Stephen King não aposta na técnica do "who done it?" (quem matou?) - recurso famoso nas mãos de escritores clássicos, como Agatha Christie, Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle, e de autores contemporâneos, como Stieg Larsson e Jo Nesbo, por exemplo. King desnuda o assassino, dando ao leitor todas as coordenadas e deixando os protagonistas do livro às escuras. Uma das maestrias de Mr. Mercedes é a construção de um psicopata comum; não há nada de sobrenatural ou tenebroso na superfície. A maldade está nas entranhas, na história de vida do assassino, no que ele se tornou e em como ele se tornou. Nesse ponto, o mestre do terror foi certeiro.

Stephen King - Créditos: Divulgação
Da metade para o final, novos personagens aparecem, antigos somem e o frenesi começa. A descrição de King para determinados tipos - seja uma mulher com transtornos psicológicos ou um grupo de adolescentes indo ao show do ídolo -, aliada à criação do psicológico do assassino (seus monólogos internos e máscaras) é surpreendente. Uma façanha e tanto que alimenta ainda mais a lenda ao redor do nome Stephen King. Investir em publicações assim deixa o coração de fãs do gênero mais feliz e menos sorumbático - o que é uma maravilha! 

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P.S: Essa resenha é fruto de mais uma parceria entre o blog Dose Literária e a editora (e seus selos) Companhia das Letras.