15 julho 2016

A sexualidade e o gênero na obra A Confissão de Lúcio de Mário de Sá-Carneiro

Este texto contém spoilers, pois foi um texto que escrevi para um trabalho acadêmico. Não é uma resenha e não tem a maturidade de um ensaio, mas revela algumas observações e conclusões que tive após a leitura do clássico português A Confissão de Lúcio, de Mário Sá-Carneiro publicado pela editora Saraiva de Bolso, edição de 2014.
Para o embasamento de meu texto utilizei em minhas pesquisas, dissertações e artigos acadêmicos: a dissertação Do duplo à abjeção: uma leitura de A Confissão de Lúcio de Mário de Sá-Carneiro de Fiorella Ornellas Araújo; o artigo A Situação de Portugal na Europa no final do século XIX e início do século XX: a Geração de 70 de Celeste Natário publicado pela Revista Estudos Filosóficos UFSJ Orientação Sexual, Identidades Sexuais e Identidade de Gênero: Comitê Gestor Institucional de Formação Inicial e Continuada de Profissionais de Educação Básica material disponível na COMFOR-Unifesp.

A sexualidade e o gênero na obra A Confissão de Lúcio de Mário de Sá-Carneiro

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguça-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes
[enleios,
Que num homem, francamente, não se podem
[desculpar.
(SÁ-CARNEIRO: 2014)








A sexualidade e o gênero na obra A Confissão de Lúcio de Mario Sá-Carneiro são pouco abordados e tratados quase sempre com enfoque subjetivo na história.
Este texto pretende abordar a sexualidade do suposto triângulo amoroso formado pelas personagens Lúcio, Ricardo e Marta em seus espaços conservadores e modernos.

Imagem de http://www.unjourdeplusaparis.com/
A história é ambientada nas cidades de Lisboa e Paris entre 1895 e 1913. O fim do século XIX na Europa foi marcado pela Belle Epoque, período cosmopolita e de grande efervescência cultural. Paris estava repleta de artistas e entretenimento como cinemas, teatros, cabarés, cafés e restaurantes. Essa moderna cena cultural urbana trazia também o erotismo, a perversão e a loucura entre os jovens artistas.
No inicio do século XX, Lisboa se transformava em uma cidade moderna por influência de Paris. Embora Portugal estivesse se modernizando, ainda mantinha características do tradicionalismo cultural e social como Celeste Natário aponta em seu artigo “A situação de Portugal na Europa no final do século XIX e início do século XX: a Geração de 70”:

Embora todas movimentações sociais, políticas e culturais que na Europa se desencadeavam tivessem importância para o que então em Portugal ia verificando,  é verdade também que a especifica idiossincrasia portuguesa, de certa forma hesitante entre um certo tradicionalismo e o avançar para rasgar novos horizontes, constitui uma peculiar característica de identidade da forma de ser e estar dos portugueses. (NATÁRIO; 2008, p.4)

A personagem Lúcio é um reflexo desse lado ainda conservador de Portugal, e isso é notado quando Lúcio depara-se com artistas da cena de Paris, cidade que admirava. Esse sentimento contraditório entre o tradicional (moral) e o moderno é observado através da aversão que tem pelo ambiente boêmio dos cabarés e suas dançarinas, principalmente quando Lúcio é apresentado à americana “fulva” pelo colega Gervásio e são convidados para um evento orgíaco promovido pela moça. 

Na festa magnifica e estranha em casa da Americana, fica clara a oposição entre o sensualismo, o erotismo, a liberdade total das roupas das mulheres, quase nuas, enfeitadas a ouro, a cintilações esbraseada de um lado, e a seriedade ascética dos trajes masculinos de outro, dentre os quais destaca-se Gervásio, impecável, mas original, o perfeito dândi.  (ARAÚJO; 2009, p. 80)


De acordo com Fiorella Ornellas de Araújo, a americana é símbolo da repulsa de Lúcio ao erotismo feminino e ao mesmo tempo deslumbramento com o sensual da moderna Paris. Notavelmente Lúcio refere-se à americana com adjetivos de assombro: “a mulher estranha”, “a americana bizarra”, “a americana excêntrica” sinal de sua inconsciente rejeição às mulheres e sua homossexualidade reprimida pelo conservadorismo da sociedade através da “heteronormatividade que seria então, o conjunto de normas, regras, procedimentos que regulam e normalizam não apenas as identidades sexuais como também as identidades de gênero, estabelecendo maneiras usuais de ser...” (ARAÚJO; 2009, p.11).
Essa questão da homossexualidade não está explicita na narrativa, porém em certas passagens em que Lúcio descreve Ricardo Loureiro, poeta e conterrâneo, que a partir da primeira conversa passam a se identificar um com o outro e a nutrir especial afeição.

Pela primeira vez eu encontrara efetivamente alguém que sabia descer um pouco aos recantos ignorados do meu espirito – os mais sensíveis, os mais dolorosos para mim.  (SÁ-CARNEIRO; 2014, p. 37).

Ricardo e Marta como representação de uma identidade

Cena do filme A Garota Dinamarquesa -2015
A identidade de gênero é “traduzida pela convicção de ser homem ou mulher, conforme os atributos e comportamentos convencionalmente estabelecidos, ou seja, as identidades definem-se em termos relacionais e categorias que podem organizar e descrever a experiência da sexualidade das pessoas” (GONÇALVES DA SILVA; p.3).

Observa-se que Sá-Carneiro refere-se à identidade de gênero de forma sutil através da personagem Ricardo e sua forma de ver seu corpo como representação masculina, mas com desejos de uma identidade feminina.
E lembra-me então um desejo perdido de ser mulher – ao menos, para isto: para que, num encantamento pudesse olhar minhas pernas nuas, muito brancas, e escoarem-se frias, sob um lençol de linho...  (SÁ-CARNEIRO; 2014, p. 50).

A inquietude de Ricardo em relação aos seus desejos sexuais pode ser identificada no trecho a seguir que ressalta mais uma vez a vontade dele de mudar de sexo para transpor o obstáculo da moral, pois sendo homem não poderia possuir outro homem, mas se fosse mulher poderia possuir e ser possuída por homem.

Para as sentir, isto é, para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem estimasse, ou mulher ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.  (SÁ-CARNEIRO; 2014, p. 51 e 52).

Na impossibilidade de se envolver com Lúcio fisicamente, Ricardo decidiu afastar-se e retornou a Portugal e após quase um ano distantes um do outro, Lúcio também volta à cidade natal e reencontra o amigo - casado com Marta por quem se “apaixona” e passa ter encontros sexuais escondidos, como amantes.
Muito se especula sobre a personagem Marta ter apenas existido na imaginação de Lúcio, pois em diversos momentos da narrativa ele a tem como uma ilusão misteriosa.

Quem era, mas quem era afinal essa mulher enigmática, essa mulher de sombra? De onde provinha, onde existia?... Falava-lhe um ano, e era como se nunca lhe houvesse falado... Coisa alguma sabia dela – a ponto de às vezes chegar a duvidar de sua existência.  (SÁ-CARNEIRO; 2014, p. 62).

Mas há uma versão em que Marta foi criada por Ricardo para resolver a questão do afeto que sentia por Lúcio e que passa ser uma extensão feminina de Ricardo.

Achei-A... sim, criei-A! crie-A!... Ela é só minha, entendes?, é só minha! Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. Somos nós-dois... .  (SÁ-CARNEIRO; 2014, p. 99).

Ela representa exatamente essa dualidade vista de maneiras diferentes: Lúcio a vê como negação de sua homossexualidade, afinal, vivia numa sociedade heteronormativa e Ricardo vê como a quem gostaria de ser.
Percebe-se que Ricardo sujeita-se às exigências do regulamento heterossexual institucionalizado. Na sociedade majoritariamente heternormativa compreende-se como natural a relação entre sexo biológico e o gênero, em defesa da complementariedade entre o masculino e o feminino.  (ARAÚJO; 2009, p. 99).

Traçado então o triângulo amoroso em que Marta é Ricardo, dois gêneros em um mesmo corpo se relacionando com Lúcio, num caso erótico e ao mesmo tempo caótico na cabeça do protagonista Lúcio.
O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira. (SÁ-CARNEIRO; 2014, p. 76).

O fim dessa relação é confusa e trágica: Lúcio acha que foi traído por Marta com Sérgio Warginsky culminando em uma discussão seguida das mortes de Ricardo e Marta por Lúcio. Diante dos fatos já expostos em que Ricardo é Marta o motivo que levou a morte de Ricardo foi o suicídio, mas Lúcio foi preso por assassinato passional.

O assombro! O  quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela não era Marta – não! – era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés – sim, aos meus pés!- caíra o seu revolver ainda fumegante!... Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama... (SÁ-CARNEIRO; 2014, p. 101).

Assim, através de uma abordagem pouco realística, Mário de Sá-Carneiro transmitiu questionamentos acerca da sexualidade e identidade de gênero que embora hoje seja um tema comum e discutido, no início do século XX era considerado um tabu.

Sem dúvida é um assunto que gostaria de me aprofundar em futuros trabalhos, principalmente pela necessidade de discutirmos gênero nas escolas e na mídia. 

Aguardo críticas e sugestões.
;)