09 julho 2016

O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Antoine de Saint-Exupéry, cujo nome completo é quase um título nobre (Antoine Jean-Baptiste Marie Roger Foscolombe), é o autor francês mais conhecido em todos os cantos e grutas do planeta. O Pequeno Príncipe (original Le petit prince, tradução de Dom Marcos Barbosa, editora Agir, 2009, págs. 96), sua obra atemporal, é um dos livros exaustivamente lidos, dissecados, distorcidos, manipulados e citados do último século.

A história é linda e fica como contribuição de Saint-Exupéry para a humanidade: o escritor, que também era piloto, desapareceu depois de partir de Borgo, na Córsega, a bordo de seu Lightning P-38. Desde 2004, quando surgiram os primeiros rastros do avião em que estava o piloto francês, o mundo espera algum vestígio concreto de sua morte (presumida, claro).

O Pequeno Príncipe narra as aventuras de um jovem príncipe morador de um asteróide distante, que parte em busca de novos conhecimentos e visões. Em sua jornada, ele encontra com tipos bem conhecidos do nosso dia-a-dia: há um rei, que imagina que todos são seus súditos; há um vaidoso, que espera ser admirado o tempo todo; há um bêbado, cujos pensamentos são vergonhosos e desconexos; há um empresário, que não tem tempo para nada, além de suas seriedades, e assim por diante. Os personagens revelam as mais variadas facetas humanas; a essência de quem está sempre disposto a perder o precioso dom de estar vivo com futilidades vazias.

Em suas peregrinações, o Principezinho encontra um piloto, o próprio Saint-Exupéry (?), isolado em meio ao deserto. Na história, o avião deu pane e o piloto precisou aterrisar para realizar os consertos necessários. Desse incidente, nasce o encontro e uma intensa amizade. Ao relatar suas histórias, o Pequeno Príncipe cita a icônica relação que desenvolveu com uma raposa. De todos os momentos do livro, o fragmento abaixo e o desfecho da história me arrebataram:

"Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E isso me incomoda um pouco. Mas, se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fossem música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, me fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo..." (grifo meu).

Esse parágrafo fez meu coração parar. Sozinho, ele me ajudou a enxergar a grandeza de O Pequeno Príncipe e suas pretensões. O que me deixa de queixo caído depois de caminhar por uma leitura desse tipo é perceber como a falsidade, a hipocrisia e a indiferença tomam conta do ser humano. Explico: nos apaixonamos por narrativas assim, que evoquem o poder do amor, da amizade, dos bons sentimentos; lemos, grifamos, parafraseamos trechos de O Pequeno Príncipe; escrevemos "O essencial é invisível aos olhos" nos cartões de final de ano (ou e-mails e mensagens de whatsapp - quem ainda manda cartões, além de uns poucos gatos pingados?) e continuamos detestando pessoas, fazendo intrigas, fofocas, mexericos... Continuamos sendo os mesmos "humanos, demasiado humanos", onde o poder, o dinheiro, a matança e a necessidade de controle são nossos imperadores.

"De que adianta O Pequeno Príncipe?", perguntaria, angustiado e desolado, Antoine de Saint-Exupéry. Imagine você: uma pessoa senta, escreve uma história como essa, ilustra (a edição da Agir de 2009 traz as aquarelas do autor) e imagina que as crianças poderiam crescer com outros valores e ideias-ações, tornariam o mundo melhor... 

Bem, a edição americana data de 1943; a edição francesa é de 1945; Saint-Exupéry desapareceu em 1944 e minha avó materna nasceu em 1933. Vamos fazer os cálculos e combinar teoria com prática para confirmarmos, em um longo debate, se o mundo é um lugar melhor. Pessoalmente, acredito que a contribuição de O Pequeno Príncipe ainda está acontecendo - e está longe de canecas, copos, bonecos, bolsas e outros objetos superfaturados, vendidos em lojas mundo afora com o rosto do Principezinho. Também está longe de mensagens compartilhadas em redes sociais ou de bocas soltas que falam apenas por falar. Ela está na mudança, na transformação que esse texto é capaz de proporcionar. O piloto fez sua parte. Agora façamos a nossa.

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Leia também a resenha da Maria Valéria (Val) para O Pequeno Príncipe.