06 outubro 2016

Um dia, de David Nicholls

Minha conclusão sobre "Um Dia" (original One Day, tradução de Cláudio Carina, editora Intrínseca, 2011, págs. 416) pode ser resumida em uma frase rápida: essa não é uma história de amor. O inglês David Nicholls trouxe um enredo que percorre dos anos 1980 a meados de 2000, apresentando as décadas, acontecimentos, felicidades e frustrações do mundo através dos personagens Dexter Mayhem e Emma Morley. Comecei a ler o romance pensando que encontraria uma história de amor jovem que seria capaz de atravessar os anos, mas esbarrei na biografia de um rapaz egoísta, vaidoso, exibicionista, bêbado e solitário, uma figura marcante da conhecida geração yuppie

Iniciamos a leitura situados no final dos anos 1980, com Dexter e Emma se conhecendo, passando uma noite juntos - de conversa - e finalizando a faculdade. Seguimos ano após ano, sempre no dia 15 de julho (dia de São Swithin - que, provavelmente, ficou mais conhecido ao redor do mundo depois do lançamento do livro), onde Dexter e Emma se encontram. Os dois - por alguma razão alheia a eles mesmos e a nós, leitores - não conseguem desenvolver um relacionamento e ficam em uma longa e injustificada amizade. Dex maltrata e faz pouco de Em (não, não estou falando de "Malhação") e ela, apesar de todo o sofrimento, continua firme e forte ao lado dele. 

Entre namoros fracassados de ambas as partes, indecisões, torturas mentais para Emma e uma tragédia familiar para Dexter, os dois vão percorrendo os anos até alcançar à maturidade. Em algum ponto do livro, o beberrão Dexter precisa encontrar sentido para a vida. E adivinha quem vai estar lá, sempre apaixonada e disposta a ajudar? Sim, ela mesma: a pobre Emma.

O site Nó de Oito publicou seis estereótipos femininos que Hollywood precisa parar de usar. David Nicholls utilizou todos. Repassando de forma rápida:

1 - Mulheres cujas vidas se transformam com um bom trato no visual

Dexter vive mencionando o quanto Emma é bonita, mas largada, sem cuidado com a aparência. Na narrativa, ele faz menção às roupas e ao modo de se comportar dela - muito estudantil e nada fino. Em determinado momento, Emma muda o visual, deixando Dexter satisfeito - um "homem-entulho" que jamais a mereceu.

2 - Mulheres deslumbrantes, mas desastradas

Emma é sinônimo de desastre, de coisas que não deveriam ser ditas mas são ditas, entre outras fatalidades. 

3 - Mulheres que privilegiam a carreira ao invés da vida pessoal (e se descobrem infelizes com isso)

Emma começa a vida profissional de forma desastrada - enquanto Dexter brilha, mesmo que de forma ridícula. Quando começa a se dar bem, Emma percebe que o amor fala mais alto.

4 - Mulheres que largam tudo pelo verdadeiro amor

Exatamente o que Emma fez.

5 - Mulheres que se voltam umas contra as outras

Emma não se dá bem com nenhuma namorada de Dexter e há sempre algo de debochado e ridículo para comentar.

6 - Mulheres que não conversam entre si (e se conversam, é sobre homem)

Essa é a relação de Emma Morley com Tilly Killick, sua colega de quarto.

Certamente, "Um Dia" não seria aprovado no Teste de Bechdel, já que Emma parece estar ali somente para justificar a existência de Dexter. É sobre ele, afinal, que o livro circula.

De positivo, ficam os diálogos sobre as crises profissionais e existenciais enfrentadas pelos personagens em cada etapa de sua vida, e a forma como as exigências sociais conseguem destruir e desfigurar sonhos juvenis - quando não se há força para mudar. O começo do livro despenca com diálogos fracos, bem bobos. Do meio para o final, na fase madura do casal de amigos, percebemos um avanço na forma como as situações vão se desenrolando - o que fica claro nas preocupações e vivências dos personagens. 

Confesso que esperava muito mais da obra e não me empolguei com o destino dos personagens. Se as questões que levantei acima não são capazes de provocar desconforto ou aflição na sua mente, vá em frente. Caso contrário, leia com atenção e fique somente com aquilo que for bom. 

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Confira o trailer do filme inspirado no livro. Se preferir, leia a outra resenha publicada no Dose Literária sobre "Um Dia".