09 novembro 2016

Morte e Vida Severina - Auto de natal pernambucano; a poesia de João Cabral de Melo Neto...

Recentemente  a Editora Companhia das Letras lançou pelo Selo Alfaguara uma edição especial de 60 anos da obra Morte e Vida Severina, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Além do poema em si, esta bela edição traz uma linha cronológica sobre o autor, bem como sua bibliografia e uma lista de livros que falam de sua obra. Morte e Vida Severina narra a trajetória de um retirante que ruma ao litoral partindo do Sertão, em que passa por cidades do interior até chegar em seu destino...

Com ares de Cordel, a literatura de João Cabral carrega o requinte da 'casa-grande' e a 'voz da senzala'. É um diálogo entre a linguagem culta e o dito popular, enriquecida pelo folclore nordestino. 

Durante seu trajeto, a presença da morte ronda Severino, protagonista do poema. Por vezes ela se mostra onipresente, como no funeral de um lavrador, ou na figura do oficio daqueles que se alimentam dela...




A obra faz uma crítica a questão social e de como a morte molda quem é rico e quem é pobre... E como ela pode presentear aquele que em vida nunca teve chance de ter coisa alguma...

- "Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido)."

Na época da ditadura militar, uma peça adaptada desse auto de natal foi censurada. Ela trazia aspectos de denúncia com relação a vida sofrida do nordestino, explorado pelo latifundiário que lucrava com o sangue e a miséria do trabalhador, que vivia e morria sem juntar um pedaço de terra pra chamar de seu, mas enriquecia o dono da casa-grande e da senzala...

O retirante simboliza os Severinos, comuns que compartilham da miséria e das esperanças de boa lavoura, que possuem mães chamadas Marias/Severinas e que perdem seus lugares para a modernidade do latifúndio, ao construírem usinas que vão expulsar os pobres de suas terras...

considerada uma das obras mais importantes da literatura/poesia brasileira, é uma leitura que encanta, tanto por sua originalidade como pelo fator atemporal, por descrever tão bem aspectos que nos são tão conhecidos, mesmo 60 anos depois de ter sido escrita... Com relação a parte gráfica, a editora fez um excelente trabalho. A edição é em capa dura e contém imagens da peça que estreou em 1965, inaugurando o Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A peça chegou a ser apresentada na França, recebendo o Grand Prix do IV Festival Mundial de Teatro Universitário.