11 novembro 2016

Parceria Pontes Editores: Libélula, de Marcos Lacerda

Olá leitores e leitoras!
Estava devendo o comentário do livro Libélula, 251 páginas, de Marcos Lacerda que anunciei na caixa do correio nº 26 e que recebemos em parceria com a Pontes Editores.



O romance tem como cenários o interior e a capital paraibana na década de 50 que revelam o desabrochar dos sentimentos do protagonista José para Felipe, ambos seminaristas na igreja de João Pessoa. 

José, menino pobre do sertão da Paraíba, que além de conviver com a seca e a falta de recursos tem que enfrentar uma perda drástica: a morte de sua querida mãe. Seu único consolo naquele momento era seu "amigo imaginário" Daniel.
Fraco de fome, sozinho, sem dinheiro ou perspectivas conta com ajuda do padre Antônio da igreja local e assim é levado à capital para estudar no seminário sob a tutela do padre Manoel.

"Padre Antônio fez silêncio tentando ocultar a emoção. Surpreso percebi que minha figura de pobreza e desamparo representava para aquele homem algo de sua existência que eu não conhecia. " - pág 40.

Para manter-se vivo tem de enfrentar as regras de um ambiente exigente e a hostilidade de algumas pessoas como o próprio reitor do Seminário, mas sendo ingênuo e bom menino, José conquista a amizade de outros seminaristas como o solicito Basílio que vai ajuda-lo a conviver naquele "mundo" novo. 

A narrativa é alternada trazendo fatos do passado e do presente do protagonista José, pois para que se torne padre, ele precisa cumprir a lição dada por frei Ambrósio: escrever a história de sua vida como confissão. Nesta confissão, José precisa falar sobre algo importante que aconteceu durante sua estadia como seminarista, o sentimento inesperado, a paixão por um dos seminaristas maiores. 

"Ele era dois ou três anos mais velho que eu, alto, pele clara, cabelo liso e negro, nariz fino e elegante contrastando com o rosto forte de homem, apesar da pouca idade. Sobrancelhas escuras e bem desenhadas emolduravam olhos grandes e expressivos. Ele era, sem dúvida, muito bonito. Confuso, percebi que olha-lo me fazia bem. " - pág 56

É então na confissão de José, que testemunhamos o amor proibido entre dois futuros padres. Como vivenciar esta paixão dentro da Igreja, instituição que abomina tal comportamento ainda mais se tratando de homossexualidade?!

Felipe corresponde aos sentimentos de José e os dois tentam disfarçar esta "convivência" para não gerar problemas, porém nem tudo sai como o planejado...

"Por que você, a quem eu verdadeiramente amo desde que nossos olhos se encontraram pela primeira vez na igreja, vive em minha vida. Através de você, sinto um fogo nas veias e eu sei que isso me pertence; e isso só pode ser Deus." Felipe - pág 187


Peccatum?

Polêmica cena da propaganda publicitária "Love for All" da marca Bjorn Borg

As paixões de padres heterossexuais já foram temas de romances clássicos como "O Crime do Padre Amaro" (um dos meus favoritos!) de Eça de Queiroz e "O Seminarista" de Bernardo de Guimarães. Ah! E ainda em Dom Casmurro de Machado de Assis, o ex-seminarista Bentinho, larga o celibato para ficar com Capitu.

Porém ainda não tinha lido nenhum romance que relata a paixão entre seminaristas (futuros padres) da Igreja Católica como é o caso de Libélula.

"A libélula estava presa e eu não podia - nem queria- me libertar da armadilha criada por aquele dorso nu cuja a beleza me embriagava como uma bebida forte..." - pág 143.

Libélula não esconde que além de amor, há muito ódio e cobiça dentro das paredes de um lugar que deveria ser de paz. Afinal, parafraseando Nietzsche - "somos humanos, demasiadamente humanos".

Os capítulos são intercalados entre o estado atual da personagem com títulos em latim (adorei isso!) e os relatos da vida de José com algarismos romanos. Dentro da narrativa encontra-se referências bíblicas e literárias como o lindo poema Visitante de Cecília Meireles o que deixou a leitura leve e fácil.

A temática, o espaço e o tempo foram bem escolhidos, posso dizer que me senti na década de 50 e imaginei cenas de bondes, casas rústicas e o próprio ambiente eclesiástico, mesmo não sendo descritos com detalhes. José me conquistou narrando sua vida e o modo como enxerga o mundo até conhecer Felipe.

A partir da união dos dois, notei poucos momentos de clímax, (esperei mais desse amor proibido entre os seminaristas) e daí uma certa monotonia no romance que termina com um final já esperado.

É um bom livro com tema delicado e personagem principal cativante. Só faltou os conflitos e aquele clímax, o pico de quando a gente perde a respiração e não quer parar mais de ler para saber o desenlace (porque esperava que o livro fosse cheio de tensões).

F I N I S