09 março 2017

Cinco Esquinas, de Mario Vargas Llosa

"A morbidez é o vício mais universal que existe", afirma Rolando Garro, editor e proprietário do pasquim de fofocas 'Revelações', o 'point' dos fofoqueiros e mexeriqueiros do Peru dos anos 1990 na ficção(?) 'Cinco Esquinas', lançamento do conhecido autor peruano Mario Vargas Llosa. Publicado pelo selo Alfaguara, da editora Companhia das Letras (parceira do Dose Literária), o novo romance de costumes de Llosa traça curvas nas esferas de um país assolado pela corrupção do governo Fujimori, mergulhado na violência do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso e intimidado (e instigado) pelos escândalos da imprensa marrom. 

A relação sexual entre as amigas Marisa e Chabela dá o pontapé inicial na obra. Esposas de homens ricos e influentes, as duas mulheres despertam para o prazer do sexo depois de passarem uma noite juntas. Paralelo ao caso das duas, o marido de Marisa, rico engenheiro e proprietário de minas, vive um terrível dilema: após participar de uma orgia sexual e ser fotografado, o empresário é chantageado por Rolando Garro. Garro tem como braço direito a jornalista Julieta, conhecida como Baixinha, que redige, pesquisa e estrutura muitos textos do pasquim sensacionalista. Ao ser ameaçado, o engenheiro Enrique procura seu melhor amigo Luciano, marido de Chabela e proeminente advogado, para ajudá-lo a solucionar o problema.

Garro liquidou a vida e a carreira de muita gente. Uma das pessoas destruídas pelo colunista é o ex-declamador de poesias Juan, que de artista de televisão passa a ser um velho esquecido e doente, escondido em um hotel caindo aos pedaços e ligado à companhia de um gato. Juan gasta o tempo enviando cartas aos veículos de comunicação com o intuito de desmoralizar o editor de Revelações mas, claro, sem obter sucesso.

O escândalo, as intrigas e ameaças que brotam do jornalismo sensacionalista explanam como funcionava a sociedade peruana na época de Fujimori, tendo em vista que, segundo opositores, o governo pagava propina para a imprensa bombear escândalos, destruindo a reputação de políticos, artistas e empresários. É esse cenário de decadência e destruição que Llosa explana em 'Cinco Esquinas'. O nome do livro, a propósito, é inspirado em um tradicional bairro de Lima, outrora imponente, cercado por casas coloniais e de famílias de posses, e que se transformou em reduto de traficantes, bandidos, prostitutas e toda sorte de personagens do submundo. 

Em relação à atuação da imprensa marrom, ora coagida, ora cúmplice dos mandos e desmandos do governo, Llosa apresenta um cenário real, inspirado em sua experiência pessoal - e na de amigos e conhecidos - com o fujimorismo. Vargas Llosa foi candidato à presidência do Peru e perdeu para Alberto Fujimori, que governou o país de 1990 a 2000. 

Já no que diz respeito aos personagens, Marisa e Chabela são a parte fraca do enredo. Fúteis e bocejantes, as duas mulheres têm apenas dois interesses em comum: usar o sexo como válvula de escape e aproveitar a fortuna de seus maridos. O engenheiro Enrique, conhecido como Quique, é medroso, covarde e cheio de não-me-toques. Luciano, o advogado marido de Chabela, é um dos personagens que deveria ser melhor explorado, já que guarda um segredo de família interessante e, quando resolveu contar aos amigos íntimos e à esposa, deixou vazar uma ponta curiosa de sua personalidade.

O passado do jornalista Rolando Garro também merecia uma citação decente, apontando como e por quê ele se tornou quem era. Julieta e Juan são personagens interessantes e, cada qual a sua maneira, têm força e valor narrativo. 'Cinco Esquinas' mostra como a imprensa de escândalos conseguia (consegue) acessar os "porões da sociedade" e ostentar seus serviços - seja em causa própria ou para atender interesses políticos.

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Dando continuidade ao projeto 'Resenha em Áudio', confira o podcast do Dose Literária sobre o romance 'Cinco Esquinas'.