31 julho 2017

A lista dos meus desejos, de Grégoire Delacourt

Vamos falar agora de uma mulher na casa dos 40 anos que vive modestamente na pacata cidade francesa de Arras. Como em toda cidade provinciana, Arras tem pouco movimento, raras novidades e aquele ar de modéstia e leveza que costuma empolgar as almas agitadas e cansadas da "cosmópolis" por três dias, no máximo, para depois acabar no mesmo lugar onde terminam os bocejos.

Pois bem, sem mais divagações: essa mulher simples, que procura viver a felicidade nas pequenas coisas da vida, dona de um armarinho, escritora de um blog sobre costura, mãe de dois filhos jovens, é também casada com um daqueles homens amargurados e rançosos, mas muito bem disfarçados, aviso logo. Essa alma feminina e sofrida tem a felicidade de ganhar sozinha 18 milhões de euros (grifo nosso, para distanciar do ideal brasileiro baseado no real). Ninguém da pacata cidade sabe quem foi o felizardo e a mulher tampouco quer dividir essa informação ou - pasmem - resgatar o prêmio. 

A mulher fictícia - unicamente na parte que concerne a desistir da bufunfa, pois, no resto, ela é beeeem real - chama-se Jocelyne Guerbette, é casada com um tal de Jo - quase o mesmo nome, ô coisa pegajosa! - e precisa decidir se pega ou não essa grana alta. Não estamos falando de uma notícia do tipo 'Mundo Fantástico', mas do livro "A lista dos meus desejos", do francês Grégoire Delacourt. Ganhei o romance das mãos de uma querida amiga e não poderia deixar de ler e, claro, tecer as minhas observações.

O enredo não foge à regra dos dramalhões tradicionais e traz a dor e a submissão de uma pobre mulher que só quer ser feliz com a sua família. Em muitos momentos da história, senti uma pena imensa da coitada da Jocelyne - leiam, vocês saberão o motivo - e não consegui deixar de pensar em quantas mães e esposas são tratadas dessa forma... Vítimas de relacionamentos sórdidos, doentes, falseados. O autor tenta costurar o passado, o presente e a autoestima de Jocelyne, ligando os fatos que podem explicar a sua submissão.

Desculpem aqui os adeptos de "xarope sabor morango", mas não vi nas linhas do livro a história de uma mulher que ama, e sim o drama de uma pessoa sequestrada. Levaram embora sua identidade, sua percepção, seus sonhos, sua autoestima... É revoltante!

Em relação à escrita de Delacourt, não gostei do lapsos e buracos nas cenas. Para não cair na tentação do spoiler, imagine a seguinte situação: você está assistindo a um filme onde o herói galã aparece com o cabelo molhado. O sujeito acabou de sair do banho, olha que maravilha (imagine se esse galão é o Dan Stevens... opa!!!). Enfim, na outra cena, o galã aparece com o cabelo seco e escovado, como se um raio "escovizador" tivesse passado por ele de repente, magicamente. Pois é. Assim é a escrita de Delacourt.

Fora isso, tudo segue conforme o roteiro. O interessante de A lista dos meus desejos é a torcida que acabamos desenvolvendo para que Jocelyne saia do buraco sozinha e perceba que sua simplicidade e amor podem ser encontradas dentro dela mesma e de ninguém mais. 

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Informações adicionais:

Nome do livro: A lista dos meus desejos
Tradução: André Telles
Editora: Alfaguara
Ano: 2013
Páginas: 152
Preço médio: de R$ 30,00 a R$ 38,00 reais.