Me chame pelo seu nome, André Aciman




     Definitivamente esse foi o melhor livro que eu li até agora desde agosto de 2017, e eu já o considero como um clássico da minha vida e eu vou explicar as razões para tanto.
     Eu nem sabia da existência desse livro e tampouco do autor se não fosse o maravilhoso filme dirigido por Luca Guadagnino que eu recomendo tanto quanto o livro, pois a adaptação é muito bem feita e explora o tema do desejo de uma forma sublime. Isso mesmo que eu quis dizer, o foco principal do livro e do filme para mim não é a sexualidade, mas a exploração do tema do desejo humano e como que os nossos “quereres” ainda são um mistério volátil. A primeira vez que eu vi o filme, eu não o interpretei sob a luz de uma visão literal de dois homens descobrindo a sexualidade durante o verão num lugar paradisíaco na Itália, porque para mim estava acontecendo algo muito mais sensível e profundo entre eles. Foi então que eu me interessei pelo livro para buscar algo a mais que eu não tinha captado 100% no filme, e para minha grata surpresa, o livro corroborou mais ainda para minhas ideias sobre o desejo humano abordado no longa-metragem.
     O livro é escrito de uma forma muito sensorial numa narrativa em primeira pessoa em que o narrador, Elio, conta suas lembranças de um verão nos anos 1980 em que Oliver, um estudante americano, chegou à Itália para se hospedar na casa de seus pais e continuar suas pesquisas. Não quero me estender muito na história porque tudo se baseia na chegada dessa pessoa estranha que Elio não simpatiza muito com ele no primeiro momento, mas que depois ele acaba desenvolvendo um desejo muito forte. É bom ressaltar que em nenhum momento a determinação da sexualidade dos personagens é definida e que isso varia da interpretação de cada pessoa sobre a história, sendo que na minha interpretação nem é a homossexualidade que é apresentada, mas o enredo parte de uma abordagem sutil melhor abarcada num viés sobre a bissexualidade. (Só que reforçando que a ideia principal para mim não se trata nem de homossexualidade ou bissexualidade entre outros, mas é sobre desejo). O autor consegue aprofundar o tema do desejo humano de uma forma tão incrível e sensível que eu nunca tinha lido algo parecido antes ou pensado da forma como ele escreveu no romance; e digo mais, até ler esse livro, nunca tinha visto um pensamento tão complexo e completo sobre as vontades humanas.
     A fim de elucidar o meu ponto de vista, vou dar um exemplo bastante contundente que tem a ver com o título do livro “Me chame pelo seu nome/Call me by your name”. No começo do romance, Elio conta como que conheceu o Oliver e que não gostava muito do seu jeito meio incisivo e quase “cru” de lidar com as pessoas, sempre se retirando ou dizendo a famosa frase, até depois. Ao passo que ele vai convivendo com o Oliver e sabendo cada vez mais de sua rotina e costumes, ele acaba se interessando pelo americano com pinta de estrela cinematográfica, e a forma como o André Aciman nos contra sobre isso é linda. Existe uma percepção do Elio que tem 17 anos de todo o corpo, gestos e características do Oliver e de uma forma muito particular, por exemplo, quando ele repara na palma do pé do Oliver que é branca e macia; na sua pele bronzeada na parte da cima e que por dentro dos braços e nas extremidades permanece branca e intocada; ou até na cor da roupa que ele usa fazendo um paralelo com suas emoções diárias e o estilo da camiseta “esvoaçante” que ele tem costume de usar. O que eu quero dizer é que a percepção e observação do Elio por um estudante de 24 anos, Oliver, que ele nunca teve contato é totalmente peculiar e com um certo tom de precisão cirúrgica. Ao passo que eles vão se conhecendo melhor, o desejo de Elio aumenta, sendo que no primeiro momento ele quer ver o Oliver todos os dias fazendo suas coisas; mais adiante, não basta apenas vê-lo, mas ele precisa tocá-lo; mais pra frente, não basta apenas tocá-lo, ele quer possuí-lo; mais pra frente ainda, não basta possuí-lo, ele quer ser Oliver e esse desejo é expresso mutuamente. Desse desenvolvimento do desejo que vai se intensificando – e estou falando de um livro muito intenso – que um almeja ser a pessoa alheia é que se origina uma parte do livro que dá nome a ele próprio - “Me chame pelo seu nome” - em que um deseja ser o que o outro de fato é. É UMA COISA MARAVILHOSA e cheia de nuances de negação por parte de ambos, só que na realidade, a negação que às vezes eles expressam, no fundo é a aceitação daquilo que sentem! (Vocês precisam ler para entender realmente o que eu quero dizer).
     Quero comentar também aquilo que eu escrevi anteriormente sobre a (bi)sexualidade ser utilizada como um tema para explorar as vontades de Elio. Elio durante a história tem experiências sexuais com uma garota chamada Marzia e que ele também nutre um desejo intenso, obviamente não tanto como com o Oliver, mas que chega sempre num nível crítico a ponto de ele transar com ela e sentir o cheiro dela na sua mão e não querer tirá-lo nunca mais. Além disso, tem a famosa cena do pêssego (quem não viu o filme, precisa ver), quando o Elio ao pegar um pêssego, imagina a bunda do Oliver e morde com desejo e depois espreme a fruta contra seu pau, fazendo com que o suco derrame e quando ele olha de volta para o que acontece, ele relaciona a parte interior do pêssego com uma vagina. Aqui deixa bem marcada a conexão dos desejos mutáveis ou concomitantemente existente entre o corpo feminino e masculino, embora nenhum deles anule o outro, ou seja, é possível que o desejo humano se expresse de várias formas, em várias fases e em vários momentos sem precisar categorizar essas vontades dentro de um modelo binário ou limitado.
     Eu amei esse livro! Achei o romance feito com uma maestria própria e de um erotismo tão sofisticado que eu tive uma experiência física como se eu sentisse as emoções que o narrador estava sentindo ao contar suas memórias. É uma putaria de tão alta qualidade que mostra que muitos desses temas tabus para pessoas conservadoras podem ter um requinte e uma qualidade literária invejáveis. Pra terminar, leiam esse romance para que tenham uma experiência fod@ e lembrem que esse ano, o autor André Aciman virá para a Flip 2018 e com certeza eu irei nem que seja só para vê-lo ou ouvir sobre o que ele mais tem a dizer sobre seus livros.