O Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati


   
  Eu quero um close nesse livro!
     Fazia tempo que eu não lia algo que não me sensibilizasse tanto como eu acabei sendo impactado depois de terminar o último capítulo. Pelo que recordo, a última vez que tive uma sensação parecia foi quando eu li “A metamorfose” do Kafka que acabou me dando um desconforto muito grande. Apesar de a história desse livro ser diferente da Metamorfose, ambos acabam tocando num assunto parecido: uma condição existencial estabelecida na qual a personagem principal acaba chegando a um fim inevitável e corrosivo. Antes de tudo, “O deserto dos Tártaros” é um livro que dialoga com dois conceitos bem filosóficos da nossa época, isto é, o ser e o tempo... e eu aqui usando o título famoso do Sartre (rs).
     A história é bem simples e nada acontece para ser sincero. Exatamente, nada acontece. O que passa na história é que a personagem principal, Giovanni Drogo, é convocada meio que por acidente para seguir carreira militar num forte chamado Bastiani, que se localiza próximo a um deserto onde os tártaros, um povo “bárbaro”, poderiam atacar a Itália. Logo quando ele fica sabendo de toda essa história de guerras e ameaças dos tártaros sobre a Itália, ele fica todo empolgado e decide ir se despedindo da família e esperando sempre coisas boas que possam acontecer. Esse é o grande problema que o livro trata, as pessoas sempre esperam algo acontecer para que valorize ou mude repentinamente a vida num sentido positivo (sempre esperam e esperam).. Sendo assim, Drogo vai até o forte, mas chegando lá, ele já percebe que o lugar não é bonito, parece meio abandonado e suas expectativas começam a ser questionadas, mas ele se mantém firme em sua decisão.
     Entrando lá, ele encontra um capitão e eles começam a conversar e logo Drogo diz que ficaria por lá apenas 4 meses como se fosse uma experiência e que logo sairia para buscar sua vida na cidade, entre outras coisas. Só que os dias vão passando, ele acaba trocando ideias com outras pessoas do exército durante suas rondas noturnas, acaba conhecendo o alfaiate do forte onde ele está, enfim... acaba desenvolvendo certos relacionamentos de amizade por lá, porém em todos eles, há sempre a ideia de que a estada no forte é passageira, ou seja, estão lá apenas para adquirirem uma vivência e logo partiriam; pelo menos é essa a ideia dos homens com uma patente baixa. É aqui que começa toda a primazia do escritor em descrever cenas do cotidiano dos soldados e de Drogo de uma forma bem simples, mas muito profunda, sinalizando como que a morada deles no lugar acaba se arrastando e que o tempo vai levando a vida assim como um rio que nunca para de correr e acaba arrastando tudo o que está com ele.
     Todos sabem que a vida deles no forte Bastiani é uma merda e uma perda de tempo imensa, mas eles mesmo sabendo disso preferem não comentar, ou pior ainda, acabam distorcendo a realidade para afirmarem que a vida deles lá é boa, porque algum dia os tártaros aparecerão pelo deserto do norte e todo esse tempo que eles gastaram lá sem fazer nada terá valido à pena.

     “Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas.”

     Pelo que eu escrevi acima, dá pra perceber bem a relação que existe entre a vida dos oficiais e o tempo, todos ali estão deixando a vida deles se esvaziarem e perderem o sentido por algo que não tem importância alguma, mas a esperança de que algum dia algo melhor acontecerá conforta a todos, por isso eles acabam ficando por muito tempo.
     Em diversas passagens a noção de que a vida vai se perdendo de si mesma pelo passar dos dias dá uma agonia tão forte e, particularmente a mim, fez com que eu voltasse a me questionar sobre minha própria vida. Inúmeras experiências pessoais fizeram com que eu me perguntasse: “Parece que eu estou parado no tempo, mas o que eu realmente quero e preciso fazer da minha vida?” O que foi de melhor no livro, fazer eu reviver certos momentos angustiantes do meu passado e ainda me questionar sobre o meu presente e o que eu espero do futuro, também contribuiu para que eu, de certo modo, me sentisse desconfortado. Mas a leitura é tão prazerosa e tão bem escrita que até parecia poesia em prosa... sabe aquelas frases que você consegue facilmente retirá-las e publicar no facebook como se assinadas por Clarice Lispector? Então, há inúmeras passagens muito bem escritas e reflexivas no livro, mas que de tão cruas e incisivas dão uma pontada no peito. (Recomendo fortíssimo a leitura desse livro de 170 páginas que voam quando estamos lendo).
     Mas voltando à história. O começo trata dessa ida e estada de Drogo no forte Bastiani sempre esperando os tártaros e olhando para o deserto que fica logo ao norte sem quase nenhuma cidade por perto. Ocorre que na metade do livro, Drogo percebe que sua vida ali já ficou uma porcaria, nada faz sentido apesar de passar muito mais tempo do que os 4 meses... assim, ele acaba perdendo a vida. Desse modo, ele decide voltar para a cidade devido a uma oportunidade, e eis o que o escritor diz assim que ele chega à sua cidade para tentar uma vida nova e reencontrar sua família:

     “Sentado na sala de estar, enquanto tentava responder a muitas perguntas, sentia a felicidade transformar-se em indolente tristeza. A casa parecia-lhe vazia em comparação ao que era antes. (...)Seu quarto permanecera idêntico, assim como o deixara, nem um livro fora deslocado. Porém, pareceu-lhe alheio. Sentou-se na poltrona, escutou os rumores dos carros na rua, o intermitente vozerio que vinha da cozinha. (...). Sentou-se ao piano, ensaiou um acorde, tornou a baixar a tampa do teclado. ‘E agora?’, perguntava-se. (...). Perambulava pela cidade à procura dos velhos amigos – e tinham sido muitos -, mas acabava por achar-se sozinho numa calçada, com muitas horas vazias antes de a noite chegar.”  (Drogo agora não consegue ser feliz em nenhum lugar. No Bastiani, ele não aproveita a vida e quando volta para a cidade, ele não reconhece mais a sua casa e nem a seus amigos. Ele acaba perdendo o propósito da sua vida e entrando num caminho sem volta que parece não ter solução).

      Por aí adiante, as coisas vão acontecendo, mas nada de fato acontece, até que você chega a ler as últimas páginas e se depara com um final bem perturbador e que eu poderia pensar em várias formas de Drogo ter um fim triste, mas a forma como termina sua vida no forte Bastiani é tão coerente, mas ao mesmo tempo, tão ácida e crua que eu me impressionei.
     Finalizando então, eu tive uma grande absorção e também uma grande identificação com “O Deserto dos Tártaros” que me deixaram uma marca e, para quem gostar da leitura que é muito bem feita, certamente terá que relê-lo porque eu estou seguro que a cada fase da vida que a gente se encontra, as interpretações serão muito diferentes. Certamente um livro clássico para toda a vida.