A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro



     Uma amiga minha e eu estávamos comentando sobre livros que tinham como tema o sexo ou certas histórias com uma putaria de altíssima qualidade, e ela me disse que conhecia esse livro e me indicou. Eu li no Kindle e me deparei com uma narrativa muito bem feita, super bem escrita, com muita erudição e, claro, com muito sexo, já que era sobre o que estávamos falando. Comecei a ler e logo no segundo capítulo eu já encaro alguns relatos meio chocantes e polêmicos, uma vez que a narradora é uma mulher já idosa e que conta suas aventuras sexuais durante a vida, e são várias, inclusive algumas envolvendo incesto, pedofilia, zoofilia, ataque aos bons costumes, entre outros. Caso forem ler, se preparem porque não existem pudores nesse livro!
     Eu achei bem interessante o livro tocar nesses assuntos ainda mais depois que descobri que ele faz parte de uma coleção chamada Plenos Pecados em que vários escritores foram convidados a fazer uma história sobre um pecado capital e o autor, João Ubaldo, ficou responsável pela luxúria, sendo que ele mesmo disse ter recebido uma carta e umas gravações de uma mulher que relatavam essa história, ou seja, ele simplesmente organizou e escreveu as ideias que essa suposta mulher lhe enviou, que logo se materializaram em “A casa dos budas ditosos”. Só que eu comecei a pensar nisso conforme a história e a escrita avançavam porque os relatos dos sexos são bem controversos, a começar pelo fato de que, embora a história seja contada por uma mulher sobre suas transas, em poucos momentos o prazer do sexo está no corpo dela, isto é, o gozo sempre é do homem: ela preponderantemente se realiza no sexo só quando o homem goza, pouco é falado sobre o tesão dela nela própria, como se ela dependesse exclusivamente de um homem pra ter prazer. Por todo o livro me pareceu que era uma visão de um homem sobre o sexo e não realmente o relato de uma mulher sobre o que ela sentia, tanto que ela debate o feminismo criticando-o e, em muitas partes, ela acha bom esse certo machismo que existe na sociedade, pois isso aumenta nela a potencialidade no sexo... [Eu ainda duvido que tenha sido uma mulher contando isso, pois a visão masculina – supostamente a do autor – é muito marcada, não deixando espaço para a voz da mulher porque, penso comigo, não é possível que o prazer do corpo de uma mulher esteja apenas no homem (no outro)]. Eu queria uma segunda opinião sobre o livro num olhar feminista porque como faz tempo que minha amiga o leu, ela esqueceu vários detalhes e seria muito legal saber o que uma mulher acharia, de fato, de como o prazer feminino é explorado no texto.
     Enfatizando a história, a narradora vai contar sobre vários caras com quem ela transou e contar detalhes sobre todos eles, até do sexo que tinha com o tio, com o irmão e de como queria ter transado com o próprio pai (chocante) se tivesse tido oportunidade; detalhe: tudo isso ainda quando ainda era uma criança/adolescente. O livro é bem pornográfico e não que isso seja um defeito, mas é uma característica importante nessa obra porque como tudo é muito bem escrito, é notável como o erotismo e a vulgaridade combinados com um alto refinamento morfológico e de conhecimentos filosóficos cheguem num resultado bom como esse. O que quero dizer é que não é por ser pornográfico que o livro mereça algum descrédito, pois aqui temos um exemplo de como é possível ter um bom livro e uma história perturbadora preenchida com vários tabus e sexo explícito.
     Basicamente é isso o que tenho a dizer sobre o livro porque cada página é uma grande putaria que ora te faz pensar sobre sexo, ora sobre padrões sociais, ora sobre tabus e ora sobre luxúria. Assim sendo, se o objetivo da editora era fazer uma coleção em que cada autor falasse sobre um pecado capital, o pecado da luxúria está muito bem representado aqui; e eu desconhecia, fora Lolita, um livro que falasse de temas fortes com uma escrita muito bem elaborada.